sexta-feira, 24 de março de 2017

Meu pai, meu herói!


Meu pai, Nelson Denker, nasceu em 22 de fevereiro de 1953. Foi o quinto de sete filhos homens, o primeiro dos irmãos à nascerem aqui em Campo Mourão. E, disto, tinha muito orgulho.

Sua primeira escola foi o Santa Cruz, o qual cursou o primário. Nunca esqueço de como ele contava, em risos, do medo que ele teve da freira que o recepcionou no seu primeiro dia de aula. Ela tinha um bigode tão grande que ele chorou e quis voltar pra casa. Mas teve que encarar a aula (e a freira). A vida continua.

Depois, foi estudar o Colégio Estadual, onde fez o ginásio e o científico - formou-se contador. Suas lutas estavam apenas começando. Seu irmão caçula, Luiz Carlos, sofria de uma doença degenerativa (similar à esclerose lateral amiotrófica, ou talvez essa mesma, por falta de um diagnóstico mais específico à época) e, no início da adolescência, veio a falecer. Não deve ser fácil perder o irmão mais novo. Mas a vida continua.

Depois, aos 19 anos, serviu o exército em Brasília, onde foi cabo e homenageado com o título de Pantera Negra (com quadro-diploma e tudo).

Em 29 de janeiro de 1977 casou-se com Odete Keller, minha mãe e, logo em seguida, ficaram "grávidos" do meu irmão mais velho, Thales Augusto. No entanto, quis o destino (ou o acaso, ou a inépcia médica) que Thales viesse a sofrer complicações em seu parto e, por obra de um laço do cordão umbilical, acabou ficando muito tempo sem oxigênio. Nasceu, mas com uma série de limitações.

Não consigo imaginar o quanto deve ser difícil, após uma gravidez normal e tantas expectativas, lidar com essa situação. Passou meses viajando à São Paulo em busca de tratamentos e remédios caros. Mas, fazer o que, a vida continua... menos para o Thales, que em 1982, deixou este nosso mundo e voltou para o dele.

Loirinho e de cabelos cacheados. Era um anjinho e, como tal, voltou para de onde veio, eles me diziam. Eu já era nascido, mas confesso que não tenho nenhuma recordação dele, senão pelas poucas fotos. Mais um golpe. Mas, é aquela velha história... a vida continua.

Eu esqueci de mencionar, mas já em 1979 ele lecionava na antiga Facilcam, depois Fecilcam e atualmente Unespar. Foi o primeiro dos sete filhos a concluir o ensino superior - formou-se em Economia na UEM, o qual havia sido aprovado no vestibular em 4º lugar. Aliás, ficou devendo um salto da ponte do Rio Ivaí, promessa de quem não havia se preparado pro vestibular...

Eu nasci em 1980. Meu irmão, Tarcisio Denker, veio em 1985 e, a caçula, Tarcila Oliane Keller Denker em 1987.

Trabalhou na COAMO, paralelamente ao magistério, por 19 anos, onde fez muitos e bons amigos.

As coisas iam bem até 1992. Em 08 de agosto meu pai e minha mãe sofreram um acidente de carro e, no dia 15 de agosto, minha mãe também resolveu partir. Foi um baque para todos, em especial para mim, com 12 anos, e meus irmãos, com 7 e 5 respectivamente. E imagina pro meu pai? Viúvo e com três crianças para criar...

Mas a vida continua. Em 1998, mais um percalço: perdeu seu irmão mais próximo, companheiro de COAMO e de Magistério na Faculdade, Alex Denker, por uma doença fatal: o câncer.

Mais tarde, conseguiu concluir o Mestrado pela Universidade Federal do Paraná, sem nunca ter saído de Campo Mourão - coisa que muito o orgulhava. Nasceu, cresceu, se formou e fez o mestrado vivendo aqui, nesta terrinha.

Depois, em 2007, meu avô, seu pai, também nos deixou. E, por fim, sepultou sua mãe, Erica, em 2016.

Desde o final de 2015, já com diabetes, meu pai vinha sofrendo com uma lesão nos pés que causaram diversas infecções e inflamações. Foram meses de internamento, altas, remédios e dores. A situação foi se agravando gradativamente e, por fim, uma insuficiência cardíaca colocou um ponto final em sua história. A vida, para ele, não mais continuaria.

Que fique claro que essa insuficiência cardíaca era tão somente relativa ao sistema circulatório; meu pai tinha um coração e um amor pela vida que poucas vezes pude ver em alguém. Quem o conhecia sabe do que eu estou falando. Amigo para todas as horas, um grande pai e, também, uma mãe.

Eu precisava contar um pouco desta história porque, quem convivia com ele, talvez não tivesse noção de quantas lutas e quantos períodos difíceis ele enfrentou. Ele não era de se queixar, muito menos de baixar a cabeça e ficar se lamuriando.

Talvez ele tenha vivido pouco. Sim, para nós, foi pouco. Mas ele sempre me disse que preferia viver 10 anos bem vividos à 100 anos mal vividos. Ainda conseguiu chegar aos 64, que apesar de muitas dificuldades, foram anos muito bem vividos. Pena que eu tenha compartilhado só 37 anos da minha vida com ele.

E, espero, ser tão especial para os que eu amo, quanto ele foi para nós.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Epifania

Eu foi naquele dia que eu morri. Ou não acordei. Algo assim. Todos os meus sonhos, meu planos e meus desejos nunca mais seriam realizados. O mais estranho de tudo foi a normalidade. Era um dia qualquer, como qualquer um outro. 

Me deitei, dormi, não acordei. E agora? Nasci em 1980. Confesso que minhas primeiras lembranças, ainda que confusas, devem ser de 1983, 1984. Antes disso, não me lembro. É como se eu não tivesse existido. De fato, não existi antes de 1980. E agora, eu não existo mais.

O que foi isso? Existência? Existencialismo? Um flash, um sopro, sonhos, alegrias, tristezas e agora, nada. Tinha tantas viagens para fazer. Tantas coisas para dividir. Um filho para criar. Uma esposa para amar. Mas assim, de repente, acabou tudo. E acaba mesmo. A história existia antes de 1980 e a história vai continuar existindo depois de hoje. Somos insubstituíveis - apenas para nós mesmos.


sexta-feira, 10 de junho de 2016

Vivendo e morrendo

Todos os dias, morremos um pouco. Seria clichê apelar para a biologia e demonstrar que pequenas parcelas vivas, palpáveis do nosso ser, se vão todos os dias. Há, claro, a renovação celular. Mas o certo é que, com o passar do tempo, nossos tecidos se vão mais rápido que do que se regeneram, envelhecemos e, por fim, morremos.

Estar vivo é isto; morrer aos poucos. Uma morte lenta, gradual, certeira, impossível de ser impedida. E, enquanto estamos vivos, estamos fadados também à uma outra forma de morte; a morte dos nossos entes e amigos queridos. 

A verdade, nua e crua, é que, ou se enterra, ou se é enterrado. 

Sobreviver, morrendo aos poucos. Morrendo a própria morte e suportando a morte dos que amamos. Quanto mais se vive, mais se morre; mais se enterra seus amores, mais se vê padecendo, aos poucos. Quando chegamos aos nossos 80, 90 ou mesmo 100 anos, já perdemos tantas pessoas, tantos amores quantas células, órgãos ou tecidos.

Eu me sinto triste. Mas é uma tristeza estranha, vivida em terceira pessoa. Olho-me a mim mesmo com uma certa indiferença que me faz ter vergonha da forma que me porto, sedado, incapaz de gritar, de chorar, de dizer 'eu te amo', te dizer 'adeus'.

Quando morrermos, apenas concluímos um ciclo de morte que se iniciou logo no dia em que nascemos.


terça-feira, 7 de junho de 2016

Uma crônica sobre o otimismo e a ingenuidade

Era uma vez um homem simples, bom de coração, ingenuo e muito otimista. Morava no sertão. E uma seca muito severa havia devastado quase toda paisagem que os seus olhos podiam alcançar. Quando só lhe restava apenas uma vaquinha malhada, um vizinho, velho conhecido seu, veio lhe visitar. A seca, claro, e a água minguando logo entraram no assunto:

- Compadre, tu sabia que se tu 'cava' bem fundo, tu pode 'acha' água? 
- Olha compadre, sabia disso não!
- Mas é... mais tem que 'sê' muito fundo!

Aquela sugestão deixou o homem esperançoso. No dia seguinte, amolou sua enxada, deu um tapa na sua pá e partiu pro fundo do quintal e começou a cavar. Cavou, cavou, cavou, mas nada de água. Quando já tinha cavado mais de 5 metros de profundidade, seu vizinho, lá do alto, perguntou:

- E aí meu compadre?  Achou água?
- Ainda não, compadre, mas acho que se eu cavar mais um pouco eu acho.

E lá foi o pobre coitado, cavando, cavando, até chegar a quase 10 metros de profundidade. Foi então que se deu conta: como é que voltaria para a superfície? Gritou pelo compadre:

- Compadre? Compadre? Como é que eu saio daqui agora, meu Deus do céu?
- Olha compadre, sei não... 'ocê' tem corda? 
- Tenho não, compadre, e 'ocê'?
- Também não... e não tem ninguém morando por estas bandas além de nós dois. A próxima alma viva fica há uns 4 dias de viagem, de burro, mas nenhum de nós tem burro...
- Ave Maria, num aguento 4 dias aqui não... num tenho mais água para nem 1 dia...
- É compadre, parece que tu cavou fundo demais e num sai dessa vivo não...
- É, me lasquei. E agora?
- Olha compadre, podemo até reza pra chove ou pra aparece alguém. Mas, por via das dúvidas, já que tu tá aí mesmo, posso ficar com sua vaquinha?

Cabisbaixo, triste e resignado, o homem responde:

- É toda sua, compadre, cuide bem dela.

E o vizinho se foi e nunca mais se soube do que aconteceu com o pobre homem, o seu vizinho ou mesmo sua vaquinha malhada.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Apoptose, autocompreensão e autofagia

I - Caos

Estou suspenso. Desfeito, mas não em peças, porque Descartes me enganou. Me desarranjei na vã esperança de compreender a mim pelos mais ínfimos pedaços do meu ser e, absorto, descobri que não me constituo de partes. Não me reduzo cartesianamente à elementos autônomos, desmontáveis  e substituíveis.

II - Érebos

Epifania. Eu não me desmontei; eu me destruí. Não há encaixes, eu nunca fui um quebra-cabeças. Aquilo que, pouco à pouco, rompia e rasgava, era eu mesmo. Um todo, sem partes. Agora, sou partes de nenhum todo. Enquanto acreditava, peça à peça, estar me desmontando, eu estava ruindo, desmoronando.

III - Gaia

Entre os escombros daquilo que eu fui um dia, uma pequena semente parece ganhar vida. Em meio aos labirintos dos cacos onde outrora pulsavam ideias e sonhos, o gérmen caminha em direção à luz. Ele parece absorver, alimentar-se dos detritos, sólidos e etéreos, que um tolo um dia julgou ser um ente, tal qual um relógio, compreensível em partes.

domingo, 22 de novembro de 2015

Distopia e utopia

Conhecer a si mesmo, a mais extraordinária experiência. Também a mais difícil, eu diria. Porque o autoconhecimento demanda a autodestruição. Como num sistema cartesiano, analisar-se significa desmontar-se, como um relógio, peça à peça, isolando-as e estudando-as para, por fim, compreender o todo.

A desconstrução é lenta, dolorosa. As engrenagens do pensamento estão acostumadas a girar num sentido, num mesmo ritmo, há tempos. Isto quando não estão enferrujadas ou danificadas. A imagem que projetamos de nós mesmos quase sempre corresponde à idealidade, não à realidade. Busco o equilíbrio na fenomenologia, no clonazepam e na esperança de conseguir, um dia, compreender todas as partes deste meu ser, neste tempo.

A esperança, faca de dois gumes, me leva a crer, além da desconstrução e da compreensão, na reconstrução. Em um novo eu. Em alguém livre dos medos, dos remédios e dos pre-conceitos. Em alguém leve e feliz. Em ser o projeto das minhas escolhas, Em ser, realmente, meu. Em ser e estar, existir e viver. Em ver e enxergar, escutar e ouvir, pensar e criar.

Mas são tantas engrenagens, parafusos e ponteiros...

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Crux Ansata

Não saberia precisar desde quando. Semanas, meses, anos... estou morto, em vida. Um processo lento e contínuo que envolve autoconhecimento e autodestruição. Obsolescência programada por um coquetel de medicamentos que me levou de mim.

De quem são essas reflexões vazias, que se assemelham à sentimentos distantes, que as vivo quase que em terceira pessoa? E onde estou eu, em meio à tudo isto? Deitado, na cama, sob efeito de alguma droga, indiferente?

Estar e não ser. Não ser mais quem era, de bom ou ruim. Morrer por completo para, quem sabe, um dia renascer. Diferente? O mesmo? Ou permanecer morto? A árvore, no meu desenho, estava seca. Mas continuam me regando, com bromidrato de citalopram e clonazepam. Ah, e água, é claro.

Que o sol possa fazer o seu trabalho.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Asilo

Como é que somos capazes de, sem tirar a vida, matar uma pessoa? Sinto uma tristeza vazia, sedada, irreal. Sinto essa tristeza longe, como se não pertencesse à mim. Ela se projeta, ao meu lado e eu a vejo como minha, mas não a vejo em mim. Sinto-me impotente para sentir. Queria ser capaz de chorar. Ser capaz de gritar. Ser capaz de discordar. Mas só sou capaz e assentir e imaginar  todos os sentimentos que estaria vivenciando, se estivesse são.

Eu sentiria muito, se sentisse.


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Diário

Pensei em escrever. As ideias, abundantes, fluem, insanas. Mas em meio a esse caos, é impossível. Não consigo me concentrar. Muitas vozes, sons, barulhos, gargalhadas, buzinas e gritos se confundem numa mistura caótica. Busco encontrar, dentro de mim, um pouco de paz e concentração, mas é em vão. Essa baderna me impõe limites.

Destaco da cartela um Rivotril. Dois.

Observo, inerte, a tela da tv desligada. Aos poucos, os sons vão diminuindo. As vozes vão se acalmando, até se calarem. As gargalhadas desaparecem, junto com o eco distante das buzinas e  dos gritos. Estão todos agora apenas na memória. Silêncio, enfim. 

Mas as ideias... onde estão as ideias? Onde está a inspiração? Elas se foram, de mãos dadas com o caos. Deveria me sentir frustrado, triste. Indiferente, me deito e penso: tanto faz. Amanhã será um novo dia. 

Mas isto aconteceu ontem. E antes de ontem. E hoje.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Empatia

"Antes que os olhos possam ver, é necessário que tenham perdido a capacidade de chorar".

Eu perdi a minha capacidade... de ver.

Ou então, nunca fui capaz de ver e, o que via eram frutos dos meus sonhos, da minha imaginação, do meu mais sincero ideal.

Ou, se a vida sabe ser cruel, tudo que eu eu vi eram tão somente as visões de terceiros que, sem me dar conta, tomei como minhas, as vivi e hoje descobri que eram apenas uma ilusão. Eram vazias.

Não sei. Só sei que me vejo no escuro, tateando desesperadamente por um interruptor. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Eu sinto muito

Eu sinto muito. Eu sinto demais. Não vivo mais num mundo racional, onde há equilíbrio entre a mente e o corpo. Eu não penso, apenas... sinto.

Sinto um vazio no peito, angustiante, que me faz perder o fôlego, perder o ar. Sinto uma vontade imensa de correr, gritar. Sinto saudades do silêncio em minha mente, das ideias que fluíam. Sinto uma dor no peito, um formigamento nos braços, a morte eminente. Sinto um calafrio correr minha espinha e a súbita sensação de que o sangue explodirá em minhas veias cerebrais.

Sinto frio e fome, neste verão castigante e a mesa farta. Sinto o mundo desabar sobre os meus ombros, enquanto sinto impotência, inerte em meus pensamentos, vazios e solitários. Que mundo é este? Onde está a empatia? Onde está a humanidade?

Sinto medo. Medo de estar em um labirinto, preso dentro de mim, e de nunca mais encontrar a saída.

A única coisa que não sinto mais é vontade de continuar vivendo desta forma, pelo menos não neste mundo. Pessoas, máquinas, objetos... insumos. É... é pavor.



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Maior que eu

Estava ali, andando, indo embora do trabalho para a minha casa, contemplando as coisas da vida, quando - epifania - eu posso morrer! Mas não morrer lá, longe no tempo e no espaço. Morrer agora, antes mesmo de chegar em casa.

Ainda bem - e a sua leitura é testemunha disto - que não foi naquele dia que eu morri. Mas aquela mesma sensação não me deixava em paz. Ela me assombrava, como uma tarefa ainda não cumprida, cujo prazo está se esgotando. E para que eu pudesse finalmente descansar (não morrer, apenas me livrar desta sensação!) eu descobri que era realmente uma tarefa que eu precisa cumprir: escrever.

Mas não escrever pelo simples fato de digitar alguma coisa. O simples tocar dos dedos no teclado não são nada mais do que empilhar palavras em prosa. Eu quero tocar o coração. Escrever na alma, no espírito daqueles que mais amo. Para muitos, minha esposa e minha filha, eu já tive a oportunidade de falar, de escrever, de compartilhar alguns dos mais sinceros pensamentos de amor, carinho e proteção.

Mas ainda tenho um pequeno menino que, embora eu diga que o ame todos os dias, ainda não pude deixar gravado em sua vida o amor que lhe tenho. E, isto fica ainda mais difícil em tempos de banalização do "amor". "Eu te amo" virou carne de segunda, comentário supérfluo de rede social, recadinho de amigos que, inclusive, desconhecem a essência da amizade. Amores e amizades eternas, que não sobrevivem dois verões.

O problema é que não existe nada maior que "eu te amo". Não se inventou ainda outra expressão que possa dar a mesma dimensão que o amor dá. Porque o amor ainda é o amor. Não chega a ser raro, mas é valioso, Não chega a ser comum, mas está ao alcance de todos. Me desculpem os "novinhos das redes sociais" (nem todos são novinhos, é bem verdade), mas vocês não sabem o que é o amor. Vocês o usam, enquanto palavra, tal qual uma hipérbole. E por mais que vocês o digam um milhão de vezes, isso não o torna verdadeiro. Não o torna amor de verdade. Gostar é gostar. Curtir é curtir. Mas só amar é amor.

E eu sei que existem diversas formas de se amar. Amar uma esposa, um marido. Amar um amigo ou um irmão. E amar um filho ou uma filha.

Eu tenho, felizmente, meus amores. Talvez caibam nos dedos das mãos e dos meus pés - mesmo que não sejam recíprocos. E eles são os nós que me dão a sustentação que tenho para viver. E eu me sinto tão mais bem à vontade quando deixo expresso o quanto essas pessoas são importantes para mim. O quanto eu as amo.

Mas... eu posso morrer. Eu posso morrer ainda hoje. Eu posso inclusive não chegar a concluir este texto. E é ai que eu penso: Thales! Meu filho querido, meu filho amado. Eu digo, todos os dias, o quanto o amo. Mas no auge dos seus dois anos, minhas palavras, meus gestos e meu carinho estão fadados ao esquecimento - pelo menos conscientemente. 

Como é que eu poderia deixar a vida e meus amores, sem deixar escrito, aqui, para todo o sempre, o quanto os amo? E, se eu não o deixar, como é que vou provar para você, na sua adolescência rebelde, que eu sempre o amei? Que os "nãos" que eu te impus foram sempre para o seu bem? Que as repreensões foram sempre pensando no seu futuro. Não quero que me julgue o melhor pai do mundo aos seus 12, 15 anos. Quero que me julgue o melhor pai que eu pude ser, aos seus 30 anos. Quero que o homem que você se tornar possa me dizer: "você acertou, mesmo errando muitas vezes."

Amor maior que eu. Eu sempre disse: eu sou meu. Mas talvez não seja tão verdade; eu sou seu. Seu amigo. Seu professor, seu aluno. Seu palhaço, seu patrão, seu funcionário, seu turrão. Seu pai. 

Não acredito em vida eterna, mas acredito que viverei, para sempre, no seu legado. Não é meu DNA que você leva adiante; é a minha alma. Eu estou em você. Não é o fator sanguíneo ou a cor dos olhos. É a essência. É o amor e o caráter o que eu quero replicar, que eu quero multiplicar. Eu dou à você a minha vida, sem morrer, todos os dias. E morrerei sem deixar de viver, se preciso for.

Aquela sensação de morte iminente, passou. Sei que ainda posso morrer, a qualquer instante. Mas se isso vier a ocorrer, que minhas palavras sejam a cristalização dos sentimentos que eu dia eu nutri, por aqueles que um dia eu amei.



P.S.: Eu amo vocês.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Até quando?

Definitivamente, não dá mais. Novamente uma crise existencial se instala dentro do meu ser e me atormenta, dia e noite. Passo o dia todo com aquela sensação ruim no estomago, uma fraqueza constante, um pouco de enjoo e o peito pesado. A vontade de chorar vem o tempo todo e, alguns momentos do dia, os olhos túmidos umedecem.

Acredito no existencialismo mas, ao contrário da corrente majoritária, não vejo a liberdade como algo absoluto. As escolhas estão ali, é verdade, mas nós, humanos, não somos assim tão livres quanto pensamos ser. Há, dentro de cada um de nós, um sistema legislado pelo nosso código genético que, de certa forma, nos faz tender a adotar determinadas escolhas na vida. Outras vezes, nem se trata tanto de programação genética, mas sim de questão hormonal mesmo, de idade, de sentimentos, de sensações.

Não quero me dedicar a explanar sobre isto, neste exato momento. O que me traz aqui é uma tristeza, talvez crônica, acentuada pela responsabilidade da paternidade. Não que a paternidade, em si, seja o problema. Ela não é; ela é o que me faz mais feliz em toda a minha vida. E ainda escreverei sobre  o maior tesouro que eu tenho: meu filho. Mas em outro momento. O que eu quero deixar claro é que a paternidade transforma a gente, de forma marcante e definitiva. E é ai que entraria, em tese, a questão da programação genética. 

É amor, é claro, e não há dúvidas disto. Mas a paternidade, assim como a maternidade, transforam a gente de tal forma que talvez seja impossível descrever. E não falo isso apenas da paternidade biológica não. Falo da paternidade gênero. Ser pai ou mãe faz com todas as nossas vontades e convicções passem por uma fase de amadurecimento e de reformulação que, no final nos damos conta de que não somos mais a mesma pessoa.

Existe, sim, metamorfose no ser humano, e ela vem com os filhos.

E o que não dá mais? É doloroso, é um ato de sofrimento companhar as notícias e se deparar com um mundo cada vez mais caótico. Cada vez mais raivoso. Cada vez mais à beira de um colapso humanitário. Estado Islâmico, crise migratória, terrorismo, fome, conflitos e, o mais deprimente, é a passividade das nações sobre tais assuntos.

Essa semana uma foto de um garoto que faleceu afogado durante uma tentativa de migração ilegal rodou o mundo, a internet e as redes sociais. E eu não consigo olhar pra ela. Eu a vi. Eu li a notícia, mas a imagem me causa náusea, mal estar. O pobre garoto deve ter aproximadamente a idade e o tamanho do meu filho, hoje.

Porque as pessoas precisam se mudar para estarem próximas dos recursos necessários? Porque não levamos os recursos à estas pessoas? "Ser" sempre foi um objeto de sofrimento, com tanto preconceito e desigualdade. E "estar" também parece sofrer com a crise. Sei que existem questões como fronteiras e soberania que precisariam ser revisadas. Mas "ser" e "estar" não deveriam ser tão complexos, tão polêmicos. Que direito é esse que invocamos ter sobre a superfície do nosso mundo?

Isto não me deixa em paz. Não me deixa pensar com clareza. Não me deixa estar bem. Este pequeno anjo caído na praia é a imagem mais sutil, delicada e ao mesmo tempo aterrorizante da desumanidade que vigora neste início de século XXI.

Não dá mais; a vontade é desistir da humanidade, desistir da internet, das redes sociais, dos noticiários. Alienar-se em prol da saúde mental. Amar mais, sofrer menos. Maldita empatia, maldita compaixão. Me coloco no lugar do pai que perdeu dois filhos e a esposa. Esse hábito de se torturar se acentuou com a paternidade. Antes, quando via documentários sobre a vida selvagem, torcia pelos leões e guepardos. Hoje, torço pelos gnus e pelos antílopes. Não abro mais qualquer notícia. Não aceito mais ver qualquer imagem.

Não sou mais a mesma pessoa. E não sei se ainda me considero "humano", pois se o seu conceito for se pautar por uma média do que são as pessoas, eu tenho impressão de que estou bem à margem do que o mundo é.

Imagine, de John Lennon, talvez tenha dito muito do que eu gostaria de dizer, aqui, neste desabafo. Você podê revê-lo, abaixo. Ou fazer um minuto de silêncio, para refletir.



 Ou simplesmente ignorar.



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Errar é desumano!

Diz o velho ditado que "os olhos são a janela da alma". Eu diria que, se há algo que transparece a verdadeira essência das pessoas, este não seriam os olhos mas sim os dedos. Ou, mais precisamente, a Internet.

Qualquer rápida navegada pelos seus 7 mares e logo constatamos que nela existe mais detritos e sujeira do que em todos os oceanos de água salgada. Nem os milênios de poluição contínua é capaz de fazer frente ao lixo produzido diariamente nos poucos anos em que a rede mundial de computadores está ativa.

Ao dizer sujeira ou lixo leia-se qualquer coisa que não tenha utilidade alguma e que possa (e deva) ser descartada de imediato. E tudo que instigar a intolerância e a insensibilidade se encaixam perfeitamente na ideia de "jogar fora". Talvez estes sejam ainda pior, porque o lixo que polui os oceanos um dia foram úteis ao ser humano, ao contrário de muito juízo de valor que se prolifera nas redes sociais.

Este mar de imundice é ainda mais cruel conosco, náufragos à deriva, pois precisamos remar contra a correnteza e em meio a esta pilha de dejetos como o ódio, a indiferença, preconceito e o narcisismo, dentre outros.

Um ponto que tem provocado uma profunda reflexão neste que vos fala vos escreve é a quantidade de puritanos arremessando pedras e despejando gasolina na fogueira da intolerância. Falar que vivemos a era do politicamente correto é redundante, mas eu nunca vi tamanho julgamento moral sobre qualquer erro, vício, irregularidade ou mesmo ilegalidade que alguém tenha cometido. 

Errar tem sido desumano. 

O mínimo deslize gera um tsunami de comentários, artigos, postagens e piadas que tem por objetivo tão somente macular, desprestigiar e difamar alguém que... errou. Como qualquer um de nós. Um motorista embriagado ali, uma piada de mal gosto ali e logo estamos discutindo a pena de morte por qualquer tostão furado.

As pessoas erram e, de acordo com a natureza deste erro, estão sujeitas a uma série de sanções (administrativas, civis e até mesmo penais) além, é claro, da reprovação moral e social. Mas estes têm se mostrado cada vez mais imprudentes e desarrazoáveis. 

Não basta mais responder por um crime, como um certo exemplo bem conhecido por todos nós, de racismo; é necessário linchar moralmente, queimar a casa da pessoa, fazer perder o emprego, mudar de cidade e ainda causar trauma psicológico para o resto da vida.

Gosto do existencialismo exatamente por crer que ninguém é um adjetivo. Ninguém é criminoso, covarde ou herói. As pessoas cometem crimes, fazem escolhas ora heroicas, ora covardes. E isso não se confunde com ela. Estes são os meios, e não o fim em si, que é a pessoa. Tanto é que o direito pune não pelo que se é, mas pelo que se faz. E há, ainda bem, sempre uma outra escolha para se fazer.

Ninguém é perfeito, mas quando abro o Facebook tenho a impressão de que vivo em outro mundo. Um mundo onde ninguém nunca cometeu nenhum pequeno deslize e as pessoas ficam com as câmeras e celulares prontos para flagrar qualquer descuido, uma paradinha numa vaga preferencial, uma saída mais cedo do trabalho, uma guloseima fora do regime.

Errar, me atrevo a lecionar, é um verbo transitivo que admite a conjugação na primeira pessoa do singular. Não se assuste quando lhe ocorrer.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Errar é humano?


Humanos matam, os animais também.
Humanos roubam, os animais também.
Humanos estupram, os animais também.
Mas só o humano erra
Porque só o humano julga.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Bem vindos à imortalidade!

"Que seja eterno enquanto dure", já disse o poeta Vinícius de Moraes, com toda beleza, lirismo e também, com muita razão. Sim, a mesma razão científica que usamos para teorizar a efemeridade do universo e sua estonteante beleza.

O "eterno", assim, é apenas um conceito ideal, intangível, que podemos traduzir, grosseiramente, como muito, muito tempo... milênios, quem sabe. E é esta "eternidade" que muitas pessoas, aqui almejam. 

Não a eternidade etérea, celestial (ou infernal, no meu caso, caso exista!), mas a imortalidade do seu nome, nos seus feitos. Ramsés, Platão, Júlio César, Napoleão... histórias (muitas delas estórias) de pessoas que, por seus feitos, estão "imortalizados" no rol das grandes celebridades. Pessoas que influenciam e inspiram outras, séculos, milênios depois de "mortas". 

Há algum tempo atrás, dei início à uma pesquisa genealógica, em busca dos meus ancestrais, minha origem. A dificuldade foi imensa e, com a ajuda de uma prima (alô Paulinha) hoje tenho uma base, ainda sutil, de quem foram meus antepassados, como e onde viviam. 

Mas... quem eram eles? Além deste sobrenome - um elo de uma corrente que carregamos pelos séculos - que nos une, o que mais tempos em comum? Será que simpatizaríamos com seus ideais, suas lutas? Que medos, que angústias, que felicidades estes nossos ancestrais vivenciaram? Que mensagem teriam deixado para seus filhos, netos, tataranetos? 

A não ser àqueles cuja estirpe possa ser diretamente ligada aos seus ancestrais famosos (como os Orléans e Bragança, em um exemplo bem luso-brasileiro), nós, assim como nossos ancestrais menos ilustres, estávamos fadados ao "esquecimento", ao verdadeiro descanso e silêncio eternos. 

Em alguns casos, poderemos saber alguns dos nomes, até cerca de 500 anos atrás, mas nada mais que isto. Notem que, no parágrafo passado, disse (ou melhor, escrevi) "estávamos fadados ao esquecimento". Nossa geração está sendo presenteada, como nunca antes na história desta civilização (desculpem, foi mais forte que eu) com a possibilidade de construir, por si mesma, sua própria história e imortalizá-la, para todo o sempre (aquele sempre que sempre acaba).

E não precisamos de muito. Apenas que a internet continue existindo e resistindo ao tempo, acumulando histórias, acumulando conteúdo. Este blog, seu perfil no face, seu instagram, suas postagens no finado orkut... tudo isto, online, à disposição, daqui mil anos. Seus tatatatata...tataranetos vendo suas fotos bêbados na balada, ou aquela sua postagem incrivelmente preconceituosa [que se justifica pela nossa moral, que diz que hoje é normal (rimou!)].

Eu queria ter acesso à "internet" do nossos avós. Queria saber se meu tataravô era um escravo ou escravagista, ou se ele repudiava aquele costume tão... comum à sua época. Se meu ancestral achava a liberdade, igualdade e fraternidade coisas passageiras, e vibrou com as cabeças rolando ou, então, viu o mundo girar sobre o eixo dos seus ouvidos. E, em qualquer destas situações, o que seu filho (meu ancestral também)  pensou disto?

Deixamos, aos poucos, pistas sobre quem somos, sobre o que pensamos, quem amamos. Nossos pequenos vícios, nossas grandes virtudes (e vice-versa). Vá ao Google, coloque seu nome, veja que história está sendo construída (meus queridos descendentes que leem este profético texto, séculos depois de minha morte, a Google era uma empresa que organizava as informações que existiam na internet). Seus fotologs, blogs, vlogs, artigos, redes sociais, sites, etc... estamos deixando um patrimônio cultural, um legado muito forte, algo que nos foi privado, por toda nossa ascendência.

Sinta o peso da responsabilidade de tudo que você posta, sobre seus ombros. Não é você que (sempre) quis ser imortal? Pois bem, enquanto durar esta eternidade, suporte as consequências!

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Homenagem - Rubens Luiz Sartori

Baseado no artigo científico, escrito em prosa, pelo Advogado, Jurista, Promotor de Justiça, Radialista, professor, escritor e poeta, Dr.  Rubens Luiz Sartori, chamado "Abordagem sobre a criminalidade e redução da maioridade penal", cuja tese foi inscrita no Seminário Estadual “Ministério Público: a construção de uma identidade”, ocorrido em setembro de 2013. 

Logo após a inscrição, Dr. Rubens Sartori veio a falecer, vítima de um AVC, e sua tese foi defendida, in memoriam, pelo Promotor de Justiça Marcos José Porto Soares. Na ocasião, optou-se por "converter" a tese, escrita em prosa, para a forma de poema, em estrofes organizadas em quadras, o estilo mais utilizado pelo jurista em manifestações judiciais, razão pela qual ganhou notoriedade em jornais e revistas nacionais.

A "conversão" ficou por minha conta (Tássio), e confesso que a dificuldade foi imensa, pois não é e nem nunca foi um dom, hobby ou mesmo uma prática minha a confecção de poemas e versos. O maior cuidado foi em manter a essência da ideia original, inscrita no seminário. No final da postagem, deixo o link da gravação amadora da declamação bem como o link para o conteúdo da tese original.


Há alguns dias, em outra semana
Lá em Campo Mourão
A sabedoria veio à paisana
De chapéu e chimarrão

Na visita nos questiona
O que acha do raciocínio?
Ouvimos atentos como funciona
E em poema, patrocínio

Abordagem sobre a criminalidade
e redução da maioridade penal;
Porque nos crimes a tenra idade
É sempre um debate atual.

Responder antes dos dezoito
Por um crime praticado
Pra uns, argumento afoito
Para outros, justificado

Sem dinheiro e educação
Sempre à margem da sociedade
Injusta seria a tipificação
Com os infratores uma impiedade

De boa-fé discutem os defensores
Sem nunca precluir
Por isso apresento aos senhores
O argumento a seguir

A questão etária é importante
Mas o mundo está diferente
Para a maturidade do meliante
A idade é mais um elo na corrente

Cultura e conhecimento
Também delimitam o cognoscente
Importa muito o discernimento
Seja ele adulto ou adolescente

Hoje tudo é mais evoluído
Ciência e Internet, a rede mundial
Há muito jovem instruído
Não há fronteiras na rede social

O crime, uma ação pessoal
Também reflete essa evolução
Se é uma atividade mental
Estudar o cérebro é a solução

Ao longo da humanidade
Nunca se discutiu amiúde
Devemos sair da ingenuidade
E pesquisar com amplitude

Não confunda com Lombroso
Autor de “O homem delinquente”
Um livro deveras tenebroso
Já superado e incongruente

Desejava mostrar a essência
Mas não ia além do preconceito
Pois julgava que a aparência
Revelava a alma do sujeito

Depois desta ideia superada
O sistema criminal punitivo
Iniciou uma busca desesperada
De recuperar e ser educativo

O que vemos hodiernamente
Predomina no sistema penal
Algo imposto gradativamente
Que não foca o aspecto mental

O crime é uma expressão da mente
Seja por “volutas”, ou pela doença
Toda a ação do delinquente
É do cérebro uma sentença

Se homem age normal
É a mente que impulsiona
Para o bem ou para o mal
É o cérebro que leciona

Mas se o cérebro não é bem feito
Inocente é o rapaz
A medicina dá o conceito
E o chamamos de incapaz

Devemos olhar com firmeza
Se o cérebro é saudável
Para auferirmos com certeza
Se o indivíduo imputável

Se penso, logo existo
Quem não domina seu pensar
Deve ser bem quisto
Mas incapaz de professar

Mas há homens no enredo
Que pensam de maneira normal
Mas que escondem um segredo
Na estrutura cerebral

Um novo tipo de raciocínio
Vem a ciência prosperar
Pois nem todo assassínio
Nós podemos recuperar

Partir do pressuposto:
“Não doentes mentais”
Vai nos trazer o desgosto
Pois não são todos iguais

Pois muitos são os pensares
De cérebros com higidez
Mas ideias não salutares
Devem ser vistas com rigidez

Nem todos os seres são iguais
Mesmo que ainda conscientes
Menores que maltratam animais
Podem ter problemas inerentes

Doutora Ana Beatriz Barbosa
Psiquiatra expoente
Escreveu uma obra valorosa
Cujo tema é pertinente

Mentes Perigosas:
O Psicopata mora ao lado
Pessoas geniosas
Que portam um mal velado

A psiquiatria nos leciona
O que vem ser psicopatia
Como seu cérebro funciona
A falsa empatia

Não possui remorso e arrependimento
Parece ter prazer em fazer o mal
Sua mente tem pleno discernimento
Como devolvê-lo ao meio social?

Estes seres não tem idade
Nem apego emocional
Possuem uma maldade
Que não se cura em hospital

Infelizmente é insensata
A fé e a esperança
Na cura de um psicopata
Que é mal desde criança

Caráter, de origem helênica
Significa marca gravada
A maldade psicogênica
No cérebro está sulcada

Não decorre do convívio social
A psicopatia do delinquente
Os médicos dizem que é cerebral
Devemos ter isso bem ciente

Deve portanto o direito
Buscar mais que a idade
Analisar friamente o sujeito
Averiguar sua incolumidade

Não se trata somente de entender
E do entendimento se determinar
É a maldade inata compreender
Para um psicopata se sentenciar

Ele sabe o bem e o mal
O errado e o certo
Entende o direito penal
Pois é muito esperto

Só com o real diagnóstico
Poderemos ter a dimensão
Aplicarmos o prognóstico
Aos que agem com perversão

É para este o horizonte
Que o direito deve se voltar
Tentar cruzar a ponte
E com a medicina fomentar

Somar sempre à idade
A capacidade e sapiência
E além da aparente sanidade
O cérebro em sua essência

Como mais um lado do prisma
A idade deve ser vista
Para não incorrer em sofisma
Nem ser falso moralista

É filosofia e religiosidade
Prejudiciais ao aspecto penal
Porque mascaram a realidade
Com a vã esperança fraternal

Este é apenas um testemunho
Uma crítica ao sistema
Uma ideia escrita à punho
Convertido em poema

Portanto o texto original
Escrito em prosa à priori
É deste jurista genial
Doutor Rubens Sartori
Um gigante promotor
Ad causam et honori



A Assessoria de Imprensa do Ministério Público emitiu nota da defesa/homenagem.

Quem preferir assistir a declamação feita no Seminário, gravada por uma câmera amadora, basta acessar este link. A declamação começa por volta dos 11 minutos.

Por fim, quem quiser ler a tese original, em prosa, pode fazê-lo neste link.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Política: razão ou fé?

Um dos mais conhecidos ditos populares, ao menos no Brasil, é que “política, religião e futebol não se discute”. Não sei se é o “proibicionismo” que excita, mas o fato é que sempre achei muito interessante discutir sobre os três temas.

Claro que quando falamos de religião, devemos ter a plena consciência que estamos mergulhando num tema aberto, sem limites e cujo objeto central circunda os elementos da fé. Em outras palavras, é prudente ter sempre em mente que religião se ocupa do crer (fé), e não propriamente do saber (razão).

Por isso é que podemos afirmar que a discussão religiosa é dogmática e dispensa a cientificidade. Não se prova a existência ou a não existência de Deus. Isto é algo que não pode ser mensurável, não pode ser falseável.

Partindo desta premissa, o cristão, hindu, islão, ateu, etc., sejam eles agnósticos ou dogmáticos, poderiam discutir em paz — algo ainda bastante distante do que vemos nos debates pelo mundo afora — suas teorias, suas crenças e suas expectativas de fé.

Futebol, assim como a religião, envolve paixão e, pelos mesmos motivos — quase sempre dogmáticos — as discussões descambam para debates hilários ou completamente desprovidos de razão. Além disto, acrescenta-se a subjetividade a respeito das interpretações das arbitragens nos jogos e temos o cenário perfeito para o caos.

Claro que existem os críticos e os fãs do esporte que, mesmo possuindo um clube pelo qual torça, sabem se posicionar de forma bastante crítica e racional. Mas estes são quase sempre exceções. Independente disto, quase sempre nas rodas de amigos e nas mesas de bares, as discussões são mais apaixonadas do que racionais.

Já a política, por outro lado, sempre me atraiu mais nas discussões porque pertence muito mais ao campo da filosofia e da ciência do que os outros dois temas. Pois se faz a política embasado em determinados posicionamentos ideológicos e essa pluralidade de opções é que torna o cenário ainda mais rico e fértil para boas e sadias conversas.

Infelizmente, assim como no futebol e na religião, a grande maioria dos cidadãos encara a política não como uma questão de razão, mas sim como uma questão de fé. A incapacidade de se discutir racionalmente a respeito de política me faz ver que a democracia só é boa para uma pequena parcela dos que se veem representados no poder.

Neste ponto, é notável como as pessoas são ignorantes — no sentido de ignorar ou desconhecer — tanto aos preceitos a respeito de correntes político-ideológicas quanto ao que tange a (im)probidade administrativa e os atos de corrupção praticados pelos agentes.

Vemos todos os dias nas redes sociais e nos editoriais de jornais e revistas, embates entre os defensores da direita e da esquerda que se esquecem que defendem um posicionamento cuja identificação é pessoal e não torna a outra corrente inepta, errada ou ainda malvada e opressora. Ser de direita não é ser fascista e ser de esquerda não é ser comunista, mas tentar elucidar este ponto de vista é como jogar palavras ao vento.

Posicionamentos político-ideológicos são salutares e fazem parte do processo dialético que engrandece a democracia e o Estado de Direito. Privatizar ou estatizar, a título de exemplificação, sempre serão ações que irão possuir prós e contras.

Mas enquanto ainda somos capazes de encontrar pontos e argumentos bastante interessantes, calcados em fundamentos teóricos ou em dados empíricos nestas discussões, embora com frequência cada vez menor, por outro lado, quando falamos das figuras públicas que representam (em tese) essas ideologias, aí vemos que a razão é abandonada de uma vez por todas e passa a valer a fé.

A fé cega.

É fácil ver como as pessoas declaram apoio ou repúdio tão somente com base na fé.

Para ilustrar melhor, eu poderia partir do cenário geral e e chegar aos casos particulares (dedutivo), mas vou optar pela via oblíqua (indutiva).

Trabalho há alguns anos em inquéritos e investigações que visam apurar atos de improbidade administrativa. Neste período, presenciei cerca de 200 procedimentos administrativos, muitos deles, cerca de 31%, convertidos em ações civis públicas, uma média maior do que os índices nacionais e estaduais (no Brasil cerca de 22% dos inquéritos são convertidos em ações, enquanto que na Região Sul, este índice cai para 19%). [2]

Em quase todos os casos — de ajuizamento de ação ou de arquivamento por outros motivos (denúncia improcedente ou irregularidade sanada sem dano ao erário), o juízo de valor técnico-jurídico do promotor de justiça é precedido e procedido pelo juízo de valor midiático, pessoal e passional. E estes são reverberados à exaustão.

A cada nova ação ou arquivamento, chovem manifestações de apoio ou repúdio de pessoas que sequer têm menor conhecimento do objeto apurado, das provas colhidas e das manifestações exaradas!

Isto mesmo: grande parte dos indivíduos se digladiam nas redes sociais embasadas tão somente no “achismo” e na empatia (ou antipatia) que tem com seus candidatos. Não buscam nem procuram fazer consultas (quase a totalidade dos procedimentos e das ações são públicas) mas mesmo assim ressonam pontos de vista elaborados sob medida, como a nada original desculpa da perseguição ou favorecimento político, por exemplo, para justificar uma ação ou um arquivamento.

Ao adotar um determinado candidato ou uma determinada sigla partidária, me passa a impressão de que muitos cidadãos são “batizados” e passam a estar intimamente ligados com estas figuras, tal qual um torcedor com o seu clube, ou um crente com sua religião, blindando-se às críticas negativas e vociferando às cegas contra os “adversários” políticos.

Por mais que me apeteça discutir política, futebol e religião, a intolerância e/ou a ignorância tem me impulsionado a me manter em silêncio cada vez mais, para manter o tênue clima de paz. Mas, “se paz sem voz, não é paz, é medo”, que flua este desabafo.

_____________________________________

[1] Texto originalmente publicado no Medium.

[2] Dados extraídos da “ANÁLISE DOS DADOS FUNCIONAIS ENVIADOS
PELAS UNIDADES DO MINISTÉRIO PÚBLICO EM 2008.” do Conselho Nacional do Ministério Público — www.cnmp.mp.br


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Majorar a menoridade: Uma antítese social

É muito comum, ao olharmos para a situação da nossa segurança pública, como brasileiros, e compará-las as de países de primeiro mundo. E, quando pensamos em alguma solução, a primeira coisa que pensamos é em “mudar a lei”. Embora exista situações em que a legislação é falha e que realmente precisa ser alterada, essa visão costuma ser, na minha opinião, quase sempre equivocada. Mas vamos explicar por partes.

Primeiramente, antes de qualquer opinião, quero deixar bem claro que acredito que nós, humanos, somos todos iguais (na medida das suas desigualdades, claro). Não é a cor da pele, formato do nariz ou a religião que se segue (ou que não se segue) que vai determinar seu caráter ou a sua capacidade. Este ponto de partida é crucial para compreender todo o restante. Mas logo mais se entenderá bem o porquê desta nota preliminar.

A respeito da segurança pública – e aí entra também a questão da maioridade – é necessário dizer que contamos (isso tanto no Brasil quanto no resto do mundo) com basicamente duas forças policiais – a repressiva e a investigativa. Uma, visa impedir futuros crimes ou então combatê-los, durante a sua realização. A outra é a investigativa, que tem por objetivo desvendar os autores e os motivos do crime, e levar os culpados à justiça para que sejam devidamente processados. Claro que, em algum ponto, a investigativa também acaba prevenindo crimes, porque tira de circulação criminosos que podem vir a ser reincidentes. 

No entanto, nem aqui, nem no Japão, USA, Alemanha ou Dinamarca, a Polícia conseguirá impedir todos os crimes de acontecer. Principalmente quando alguém quiser realmente cometê-lo. E isto é uma anotação simples e inquestionável, pois não há, em lugar nenhum do planeta, civilização que tenha um policial por habitante, vigiando-o 24 horas por dia. 

Se eu quiser matar alguém, eu consigo. Ficar impune ou não ser descoberto, é outro assunto. Mas o fato é que, estamos sim e sempre estaremos à mercê da vontade alheia. Se alguém quiser me assaltar, essa pessoa vai conseguir, cedo ou tarde, porque eu tenho consciência de que não há meios do Estado se fazer presente em todos os locais o tempo todo. 

No entanto, ainda que conscientes de que elas têm essa faculdade de cometer tais crimes, as pessoas, via de regra, se comportam da forma adequada, seja por medo de uma futura punição, seja por valores morais ou, ainda por seu estado social. Usei a expressão via de regra porque, no pior dos piores cenários, não mais de 10% de uma população será criminosa.

Resumindo: nenhum país impedirá todos os crimes de acontecerem – desde os atentados terroristas, maridos que matam esposas, assaltos à mão armada aos muros pichados. O que um Estado pode fazer é ser eficiente em prevenir ou, depois de acontecido, descobrir e elucidar esses crimes e, ainda, lidar com o criminoso de forma adequada.

E porque as pessoas cometem crimes? Essa discussão é muito profunda, abstrata, e demandaria um compêndio de livros sobre psicologia, sociologia, antropologia, criminalística, filosofia e outras ciências para chegarmos à um conceito ou um rol de motivações. Mas há, nitidamente, uma diferença muito grande nos índices de criminalidade do Brasil e de países de primeiro mundo. E não é coincidência, mas há, também, uma grande diferença nos índices sociais e de IDH entre esses mesmos países. 

É notável a correlação entre a qualidade de vida de uma sociedade e os seus índices de criminalidade. Países em que o Estado ou a sociedade são sadios e podem oferecer melhor qualidade de vida aos seus habitantes sempre terão melhores índices de segurança pública. 

Isto porque, em tese, as pessoas são melhores educadas, mais conscientes e possuem menos necessidades não supridas. É por tal razão que existem poucos assaltos, roubos e homicídios nestes países. É por isso que estes países só enfrentam crises de segurança quando algum alucinado entra em uma escola e mata professores e alunos – crime que não tem sua origem na condição social ou cultural, mas quase sempre associados a problemas psicológicos ou psiquiátricos. Mas veja, nem nestes países é possível prever e impedir tal crime. 

Novamente resumindo, é notável que as condições sociológicas, culturais e educacionais refletem diretamente na potencialidade de um indivíduo vir a ser criminoso. Neste ponto é que encontramos a diferença entre um país como o Brasil e a Dinamarca, por exemplo. Qual a possibilidade de um brasileiro pobre vir a ser criminoso? Baixa, claro, mas ainda assim muito maior do que a de um dinamarquês pobre.

Lembra quando eu comentei que as pessoas são “todas iguais”? Eu lhe pergunto, aplicando um exemplo simples: uma criança nascida no Brasil e que é levada ainda bebê para a Dinamarca e lá criada como um dinamarquês, vai refletir, em sua vida adulta, que percentagem de probabilidade de vir a ser um criminoso? 

Claro que não somos inferiores, enquanto humanos, aos dinamarqueses. Um brasileiro criado lá refletirá os padrões sociais de lá. Porque somos matéria do mesmo barro. Mas enquanto sociedade ainda estamos deixando muito à desejar.

E o que isto tem a ver com a maioridade penal?

A diminuição da maioridade penal vem sendo vendida como uma forma de atenuar ou diminuir a criminalidade na sociedade brasileira. Mas se olharmos bem para a origem dos nossos problemas, veremos que o “medo” e as “penitências” que o Estado dá aos já maiores não ajudam, em nada, na política de prevenção do crime. Se um maior, mais consciente, comete o crime da mesma forma, porque não um adolescente, mais inconsequente, vai deixar de cometer?

Pois não é o medo, não é a cadeia que vai impedir um crime. Nada impede um crime. Mas se tivermos uma política que melhore a qualidade de vida, diminua as necessidades não satisfeitas, é que começaremos a ter melhoras nos índices de criminalidade.

Aliás, em muitos dos países mais desenvolvidos as penas são mais brandas que no Brasil, e a criminalidade é muito baixa, o que mostra que a relação punição-prevenção não funciona como o prometido.

O que vai solucionar os problemas é oferecer aos nossos jovens educação, saúde, e oportunidade de crescer culturalmente, financeiramente, espiritualmente, psicologicamente e filosoficamente, para que o crime não seja visto como uma alternativa viável para se conseguir satisfazer as suas necessidades. Isto porque, se alguém quiser cometer um crime, sabemos que ela conseguirá. Precisamos é combater os motivos pelos quais as pessoas cometem crimes. Nossos jovens são tão capazes quanto os jovens dinamarqueses. Só falta aos nossos, aquilo que lá eles tem. 

Ao diminuir a maioridade penal, o Estado estará deixando de lado o combate à causa da criminalidade, para fornecer aos jovens que cometem infrações ainda mais motivos e razões para continuar no mundo do crime. 

Por fim, apesar de todo o exposto, eu não concordo com a maioridade penal aos 18 anos. Mas também não concordo com ela aos 16, 12, etc... Na verdade, eu sou contra a existência de um critério de idade para a imposição da imputabilidade. Assim como ocorre com a presunção de violência no estupro – uma relação sexual, mesmo que consentida, com um menor de 13 anos é considerado estupro – a idade nem sempre dirá o quão consciente é uma pessoa, o quanto ele tem capacidade de discernir, compreender. Isto é um conjunto de fatores educacionais, sociais, dentre outros. 

Ao meu ver, sempre que acontece um crime, durante o trâmite do processo penal, além da autoria e da materialidade, em uma determinada faixa de idade, como dos 14 aos 20, por exemplo, a capacidade deveria ser igualmente investigada, pois há, sim, adolescentes com 16 anos que tem plena consciência da ilegalidade da sua conduta, enquanto há outros, com 18 que não tem a mesma noção. Aplicar-se-ia a imputabilidade, semi-imputabilidade e a inimputabilidade caso à caso. Mas isto é a questão da responsabilização apenas. A questão da execução da pena deve continuar mantendo adolescentes separados do sistema carcerário dos adultos. Mas essa discussão fica pra outra hora.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Laços & Nós

"Aqueles que passam 
por nós não vão sós. 
Deixam um pouco de si, 
levam um pouco de nós."
Antoine de Saint-Exupéry


Hoje é um dia muito triste, pois mais um pedacinho de mim foi embora. Algo aqui dentro me impele a tentar transformar essa tristeza em força, a força em palavras e as palavras em um desabafo, numa espécie de adeus, ou "até mais".

Um dia, eu, você, nós nascemos. Alguns há mais tempo, outros ainda há pouco. Desde então nós sobrevivemos nesta grande barca chamada planeta Terra. Mas nunca estivemos sozinhos. Dos dias mais ingênuos de vida até o presente momento nós estabelecemos laços com nossos pais, irmãos, tios, primos, cônjuges, avós, e amigos.

Esses laços unem eu e você, por meio de uma "corda invisível" que eu chamo de amor. E o laço do amor é resistente, quase indestrutível.

Não é um simples laço; é um nó, muito bem atado. Nós que nos unem. Nós e os nós.

Quase todos os dias fazemos novos laços, mas os nós não são feitos assim, de uma hora pra outra. A nossa história, nosso amor, amizade e todo aquele carinho são os contornos e as voltas deste laço que nos ata.

Estes "nós" então se tornam uma extensão da nossa própria alma, e não nos vemos mais como indivíduos solitários. Temos nossos muitos nós e eles nos guiam nessa jornada mundana. Tal qual para o mastro e suas velas, essas cordas e esses nós nos dão a sustentação que precisamos para navegar nesta vida.

Hoje, infelizmente, um nó muito querido se desfez e, eu perdi um pouco do meu equilíbrio. Um pedacinho de mim escapou e foi embora, para sempre. Nossa história, nosso amor e nosso carinho, este fica. Mas aquela pessoa que estava do outro lado do nó se foi. É justo dizer que ela precisava ir. Precisava descansar, embora isso não alivie a saudade, o amor que fica.

A batalha pela vida, contra si próprio, é a mais terrível e a mais cansativa que existe.

Pois nada se compara ao câncer. Um pedacinho do seu próprio ser que se insurge, nas sombras, minando o próprio organismo. Como uma traição programada, suas próprias células, acima de qualquer suspeita, trabalham como terroristas, se multiplicando em silêncio, esperando o momento certo de executar o derradeiro atentado, sua própria destruição.

E o nó então se desfaz, deixando para trás apenas outro nó, aquele na garganta, além das incontáveis lágrimas nos nossos olhos.

Já perdi nós insubstituíveis nessa vida e o que nos deixa inconsolável é saber que não há nada que possamos fazer, senão assistir, passíveis e inertes, a partida de um ente querido.

Não há amor, não há um "nós" substitutível, porque entre eu e você, há uma história única. Mas há, sempre, novos amores. Novos laços, novos "eu e você". E é a um novo "nó", recém atado, que eu dedico toda a minha condolência. Deixo também meus pêsames a todos meus primos e tios, pois a perda é realmente imensa. Mas ninguém se apoiava tanto a este "nó" como minha pequena prima, minha "irmãzinha".

Descanse em paz, Jaqueline Denker. Obrigado por ter feito parte da minha vida. E saiba que nós daremos todos os nós e laços que forem necessários à (ainda) pequena Ingrith Denker!



quarta-feira, 8 de abril de 2015

Idílicas notícias etílicas II



DOCE:
Asfalto mouraoense faz parte do cartel de commodities!
Agência Róiters.


Após 16 meses de intensas investigações, o Procurador Adjunto da Polícia Agronômica de Campo Mourão concluiu, nesta terça-feira, 30 de setembro, o inquérito político que visava apurar a relação entre o preço do Etanol e as chuvas torrenciais que afetavam o nosso município.

Graças à delação premiada de um vendedor de algodão doce que fica o dia inteiro em frente ao portão leste do parque das Torres com um carrinho verde-limão (cuja identidade é mantida em sigilo para sua própria segurança) a equipe de investigação descobriu um esquema fraudulento entre a Secretaria Municipal de Recapes Rotativos e a COCA - Corretora Orgânica de Commodities Associados.

O esquema funcionava da seguinte forma: açúcar é o principal ingrediente, digo, insumo utilizado para dar liga no asfalto mouraoense. Com isto, a cada chuva, todo asfalto vai pelo esgoto, juntamente com a água, aumentando a demanda de açúcar para novos recapes. Desta forma, o preço da Cana-de-açúcar dispara na Bolsa, ocasionando o aumento do preço do Etanol nas bombas, pois todo o açúcar produzido na região é destinado às operações de tapa-buraco, garantindo o lucro da COCA.

A descoberta foi confirmada por meio de análises químicas no asfalto, feitas pelo laboratório do DDD (Departamento de Defesa dos Diabéticos). Uma contra-prova foi encomendada ainda nesta manhã, e deverá ficar pronta até o início da Copa do Mundo da Rússia. Nenhum dos envolvidos quis comentar os fatos.

terça-feira, 3 de março de 2015

Círculo da vida



Nihil.

Eu. Meus pais. Meus avós.

Meu filhos. Eu. Meus pais.

Meus netos. Meu filhos. Eu.

Nihil.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Israel e os 7 à 1

As proporcionalidades que Israel é capaz de nos proporcionar


“A resposta de Israel é perfeitamente proporcional. Isso não é futebol. No futebol, quando um jogo termina em empate, você acha proporcional, e quando é 7 a 1 é desproporcional. Mas não é assim na vida real e sob a lei internacional.”

Dias atrás me surpreendi com essa resposta dada pelo porta-voz de Israel, em atenção às declarações prestadas pelo Ministério de Relações Exteriores do Brasil. Na ocasião, o Itamaraty criticou “ o uso desproporcional de forças pelos israelenses” no já saturado embate na Terra Santa.

Também pintou um “Anão Diplomático” nas declarações de Tel Aviv, mas considero essa ofensa menos grave, por motivos que não convém aqui mencionar, ainda mais em ano eleitoral.

Hoje, 1º de Agosto de 2014, fui buscar alguns dados apenas para ter uma ideia do que Israel considera “proporcional”, na vida real e nas “leis internacionais” (?).

Zapeando alguns sites, como o da Folha de São Paulo, pude apurar que já são 1459 palestinos mortos contra 63 Israelenses. O G1.com, site de notícias das organizações Globo, informa que seriam 1464 palestinos, ampla maioria de civis, contra 61 israelenses, em sua absoluta maioria, militares.

Vamos arredondar por baixo as baixas — o que é uma puta falta de respeito com qualquer vida, eu concordo — mas apenas para evitar hipérboles desnecessárias no “cálculo da proporcionalidade de Israel”.

Se levarmos em conta a “ampla maioria de civis”, das quais encontramos muitas crianças entre as vítimas, podemos dizer que pelo menos setecentos civis já foram mortos por Israel. Já as informações de baixas civis do lado judeu não chega a sete, mas fixemos esse número, tão especial para a cabala e a cultura hebraica.

700 à 7. Cem por um. Eis um dado “bastante proporcional” de um “conflito justo” aos olhos dos nossos amigos monoteístas. Isto nos cálculos atenuados deste que vos fala, pois a proporcionalidade deve estar mais próxima dos mil por um. Mesmo arredondando para baixo, não foi possível evitar a hipérbole, embora o exagero, neste caso, não seja apenas uma figura de linguagem.

Proporções à parte, a declaração de Israel me deixou mais chocado do que os números, em si. Não pela rispidez, afinal, essas palavras não ferem tanto quanto os bombardeios em escolas da ONU.

É a frieza de quem compara vidas à gols, como se matar fosse um esporte.

Pois é assim que Israel encara o “jogo”. Como uma pelada de fim de semana. Chamar o Brasil de “anão diplomático” até pode fazer sentido, mas fazer de uma derrota esportiva uma piada para justificar um genocídio, aí já transcende o macabro.

O humor judio faz o humor negro parecer musical infantil. E a nós resta continuar assistindo esse filme de terror — ou mudar de canal e fazer de conta que vivemos em um outro mundo, onde os “7 à 1" causam traumas às nossas pobres crianças indefesas.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Lá e cá, outra vez

Decidi que não devo deixar para trás esse blog. Embora tenha criado uma conta no Medium e publicado meus últimos textos lá, acho que, pelo histórico de postagens aqui, devo, no mínimo, manter esse meu cantinho vivo e atualizado.

Por isso, irei fazer o caminho reverso: trazer do Medium para cá minhas últimas postagens.

Tenho uma pequena história de carinho com o blogger. Aqui foi o primeiro espaço onde criei coragem para expor muitas das minhas divagações, sentimento, ideias e etc..

Ainda mais nestes tempos que, aparentemente, reina a solidão nos bons e velhos blogs. Será que alguém ainda aparece por aqui? Talvez sim, talvez não... mas esse silêncio é ainda mais incentivador, porque nos dá a segurança de sermos mais livres para criar.

Por isso, digo: estou de volta.

Divagar, devagar e sempre!

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Mudanças

Saudações, amigos leitores e escritores.

Como tudo na vida encontra suas mudanças, cá estou eu a anunciar a minha.

Estou meio afastado do blog, um pouco por causa do tempo, outro pouco por relaxo e outro tantinho por falta de inspiração mesmo.

Eu optei, recentemente, por aderir a uma rede social para escritores (amadores, como eu, e profissionais, como muitos outros lá). Chama-se Medium. Aliás, recomendo muito, pode-se usar o login do twitter ou do facebook.

Aos poucos, irei repostar meus textos daqui lá, bem como postar outras novas insanidades, também por aquelas bandas..

Meu endereço lá é: http://medium.com/@TassioDenker

Nos vemos lá!

Abraços a todos.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Idílicas notícias etílicas I


DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA NACIONAL 
DESCOBRE CAUSA DOS BURACOS EM CAMPO MOURÃO*

Agência Róiters.


O Departamento Nacional de Segurança, juntamente com os Deptos. de Inteligência e de Imigração do Governo publicaram nota, hoje, informando o motivo do surgimento anormal de buracos nas vias públicas de Campo Mourão, interior do Paraná.

Segundo Iranildino Galvão, Chefe do Depto de Segurança, trata-se de um fluxo migratório ilegal de chineses. “Começamos a perceber que, na medida que os buracos iam aumentando, iam também aumentando a quantidade de pastelarias pelos bairros mourãoenses”, afirmou em nota.

Procurado, o Chefe não quis gravar entrevista, mas salientou um segundo dado importante – a de que um mesmo homem de nacionalidade chinesa havia sido preso 437 vezes no período de um dia, sem passaporte, pelas autoridades locais. Após intensa investigação do Depto. de Inteligência, concluiu-se que não era o mesmo indivíduo preso, mas sim 437 chineses que haviam chegado de forma clandestina no Brasil, através de Campo Mourão.

Mais surpreendente foi a forma de entrada no país: utilizando-se da alta tecnologia chinesa, os imigrantes construíram equipamentos, com liquidificadores, baterias de iPhone e chapinhas de cabelo ionizadas, máquinas capazes de atravessar o núcleo da terra. Devido à um erro dos aparelhos de GPS chineses, eles acabaram eclodindo nas ruas de Campo Mourão, ao invés da grande São Paulo.

O reverendo John Dear, veterano de guerra do Vietnam, quase faleceu devido à um enfarte quando percebeu Francisco Tazo Lozada emergindo de uma cratera no asfalto, em plena Av. Capitão Índio Bandeira. 

Francisco Lozada, o único chinês identificado até o momento (assoviava o hino da Argentina e portava um passaporte Irlandês) foi quem revelou o esquema às autoridades nacionais, em troca de um PS3 usado.

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*Campo Mourão é uma burlesca cidade no interior do Paraná, onde este que vos fala nasceu e ainda reside.

quarta-feira, 28 de março de 2012

A arte de não dizer nada


Comece divagando. Seja mais abstrato o possível, contornando assuntos contrastantes, vagos e difusos. Questione, pergunte ao leitor. Faça afirmações pseudocoerentes e questione novamente ao fim. E responda o primeiro parágrafo, com uma palavra. Mas não uma palavra que seja realmente a resposta. Apenas uma que o prenderá ainda mais no texto. Mas como? Assim. 

Depois, direcione o texto para aquilo que quer mais chamar a atenção. Vá estreitando o leque de assuntos, focando o alvo. Mas não chegue nele tão rápido. Vá por interpolação, pelas tangentes. Arrisque uma oração óbvia, manjada, com a qual o leitor poderá se identificar. 

Sabe aquele sentimento de conhecimento abstrato que você possui, que você sabe o que é? É exatamente este sentimento que você deve instigar na pessoa que estiver lendo seu texto. Tente exteriorizar o que você pensa de maneira abrangente, procurando causar efeito de entendimento da mesma maneira que você sabe, que você sente saber. 

Dê voltas, prepare o leitor para entendê-lo. Essa preparação deve ser feita enquanto você estiver afunilando o tema. Você sente o conceito e precisa fazê-lo sentir, o que só será possível após ele compreender corretamente as suas dicas.

O clímax é quando você finalmente diz, de maneira concisa, aquilo que o leitor já estava esperando. Ele se surpreende, quando na verdade era aquilo que esperava. O óbvio. Você tinha dado as dicas. Você tinha preparado ele. Já havia dito, de maneira indireta, pela forma como conduzira a argumentação, nos parágrafos anteriores. 

Com a simpatia ou apenas a concordância do leitor, quando estiver ele compreendendo corretamente, sintonizado com sua proposta, sem dúvida quanto ao mérito, então você poderá ousar. Surpreender de verdade. Qualquer coisa que tenha uma semelhança, um elo, pode ser argüido. Até mesmo uma falácia. Parecerá um gênio. “Nunca tinha percebido isso” é a resposta perfeita que ele poderá pensar. 

Seja um pouco redundante, para que ele possa digerir a conexão dos assuntos. Dê dois exemplos, mostre na prática. Use analogias. Faça com que, ao longo deste parágrafo, se torne familiar tal conexão, para que não paire aquela sensação de absurdo. 

O gran finale. Você começou abstratamente, divagando em perguntas aparentemente sem nexo, mas que foram indiretamente respondidas ao longo do texto. Ou seja: se ele voltasse ao primeiro parágrafo, o que não fará enquanto não terminar de ler, encontraria todas as respostas implícitas no texto. Agora, do nada, responda uma das perguntas formuladas no começo. Ou então duas, com uma única afirmação. E não precisa repetir a pergunta, apenas responda. Uma afirmação aparentemente perdida. Soa misterioso, sábio e conclusivo. 

Desta forma, você conseguirá prender a atenção do leitor, e, sejam sofismas, sejam verdades, você o enganou. Como eu agora, sem dizer nada. Sem ensinar nada. Sem acrescentar nada. Apenas pelo prazer de tomar seu tempo e fazê-lo gastar comigo. Foi mal aí.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Subjetividades objetivas

Ah, que saudades desse lugarzinho. Meu cantinho da insanidade, do desabafo, delírio e subjetividade. Desde sempre, me disseram, ensinaram e cobraram: seja claro e objetivo. Eis aí, nestes conselhos, as maiores dificuldades que ainda devo superar, na qualidade de "escritor" (uma hipérbole e entre aspas).

Desde que dei por mim, escrevendo, nunca fui muito objetivo. No meu trabalho, até me esforço. Mas nos meus textos, na minha "redação pessoal", ah, aí sempre foi difícil. Ainda mais com meu especial dom de perder o foco dentro de um determinado texto. Recobrando a razão, nem é sobre meu "estilo literário" que quero escrever.

Hoje, eu quero julgar. Mas talvez seja mais adequado dizer - quero classificar. Classificar você.

Tarefa árdua, complexa e ingrata. Como classificar uma pessoa? Escolhendo um parâmetro. E o parâmetro, paradigma deste texto, não é a etnia, o clube de futebol, religião, beleza ou gosto culinário. É a objetividade ou a subjetividade da natureza de cada pessoa.

Tive esse insight quando assistia a um filme chamado "Se enlouquecer não se apaixone" (título original - it´s a kind of a funny story). Mas o filme pouco importa, foi apenas um comprimido de LSD para o delírio que vem a seguir.

Ao que interessa... arrisco dizer que existem três tipos de pessoas: as objetivas, as subjetivas e todas as demais, que flutuam num meio termo até hoje inominado por este que vos fala.

As pessoas objetivas são aquelas que tornam tudo mais simples, fácil. Decidem, quase sempre no impulso. Não tem tempo ruim, não tem sopesares, não existem outras pessoas para se levar em conta. Levam a vida com mais leveza na mesma proporção em que tropeçam e caem. E levantam.

Os objetivos tem uma enorme dificuldade em lidar com as diferenças, em especial aceitá-las. Quando programam um evento, um cinema ou uma viagem, usam a si mesmos como parâmetros. Exatamente por serem débeis na arte de compreender a subjetividade dos demais, levam em conta o que acham que é bom. Suicídio, para os objetivos, é uma loucura. Gastam tão pouco tempo consigo mesmas que sofrem depressão aguda toda vez que ficam sozinhas por algumas horas.

Sabe aquele cara descolado do colégio, que todo mundo gosta? Aquele mesmo, que não consegue entender porque seu amigo calado não sabe curtir a vida. Ele nunca vai entender, por mais que tente, porque você quis ficar em casa ao invés de curtir "a" balada da semana.

No outro lado do pêndulo estão os subjetivistas. Ah, os subjetivistas. Fazem de qualquer escolha uma decisão espiritual, existencial. Gostam de levar em conta os detalhes, os gostos e as opiniões alheias. Isso quando as perguntam, pois a subjetividade geralmente os fazem refletir mais do que falar.

Suas escolhas não são simples. Também, pudera. Quantas pessoas ele pode afetar com sua decisão? Vou locar um filme, mas qual? Fulano não gosta disso, beltrano prefere aquilo. Que lugar ir? Joãozinho não tem dinheiro para acompanhar essa festa, tenho que pensar em outra opção. Se eu escolher um restaurante a beira-mar, posso piorar a febre do Zezinho. Há quem insista num casamento fracassado pensando exclusivamente nos filhos, pais, sogros e bens.

Os subjetivos são reféns. Reféns de suas escolhas, escravos das suas dúvida, quase sempre sujeitos passivos em suas próprias vidas. Quando muito, importantes coadjuvantes que se empenham no brilho estelar de seus amigos cativantes, empáticos e tão... objetivos.

Introspectivos, reflexivos, observadores e, quase sempre, melancólicos. 

Falta ainda falar da "terceira classe", aqueles que se encontram no limbo não muito claro que permeia ambas personalidades antagônicas. Aqueles cujo pêndulo não alcança as extremidades, graças ao equilíbrio. mas... não será mais necessário.