Muita gente elege o filme "O Poderoso Chefão" como um dos melhores filmes de todos os tempos. Eu não lhes tiro a razão porque o filme realmente é uma obra-prima. Mas (sempre muito cuidado para tudo que vem depois do "mas"...) eu tenho um carinho maior pelo segundo filme e é por isso que me recuso a escolher entre um deles.
E eu só estou falando disso porque, nesse filme, há uma passagem em que Michael Corleone fala sobre ter os amigos perto e os inimigos mais perto ainda. E essa ideia — maquiavélica, por sinal — parece estar sendo levada muito a sério por este que vos escreve. Quem, neste mundo, é mais próximo de mim do que eu mesmo?
Sim, sou meu pior inimigo.
Ninguém é capaz de me destruir com tanta facilidade quanto eu mesmo. Todos nós sabemos que os piores golpes e as piores traições sempre vêm dos amigos mais próximos e, neste caso, não há alguém que ocupe essa posição melhor que eu.
Sou capaz de criar as maiores expectativas, como subir ao Everest, mas morrer com elas no trajeto, seja na ida ou então na volta — o que traz até um toque refinado de sarcasmo que só a vida nos ensina. Ou deveria ensinar. No alto dos meus 45 anos (bem alto mesmo, quase virando 46), eu ainda não aprendi a lidar com a ansiedade e as expectativas.
Uma coisa leva a outra. Ansiedade à expectativa e expectativa à ansiedade, num ciclo vicioso de retroalimentação.
As expectativas, por si só, não são sempre ruins; são necessárias e muitas vezes combustível para sonhar, para viver. Já a ansiedade também é um combustível, mas de uma volatilidade e capacidade de combustão que queima até a alma, inclusive daqueles que não creem em almas.
Ansiedade vicia. Toma conta do seu ser e consome o seu querer, o seu desejar. Te faz ser uma pessoa incapaz de ouvir a razão e aqueles que te amam. Ela pega na sua mão e te faz ser odiado por todos, inclusive por você mesmo. É, no momento, eu me odeio.
Eu não magoo só as pessoas que eu amo, eu magoo a mim mesmo. Porque uma coisa leva à outra. Amar e ser amado, odiar e ser odiado. Tudo isso acontecendo às cegas, à revelia do seu próprio saber. Do meu saber, porque os outros veem. Quem não enxerga sou eu.
Aos poucos, cada vez mais solitário. Mas não sozinho, porque tenho sempre a minha companhia. "Antes só do que mal acompanhado", eu defendo. Mas como se defender, como se desvencilhar de si mesmo? Um a um, todos se vão. Eu fico, como o guarda da estação de trem, que nunca embarca em busca da própria felicidade porque tem outros compromissos.
Eu queria enviar esse meu eu para longe. Para nunca mais me machucar. Para nunca mais deixar que me machuquem. Mas eu não consigo.