sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Teatro das sombras

Eu queria sair. Sei lá, tomar uma cerveja, comer alguma coisa. Ou simplesmente comprar alguns pequenos itens de que preciso para a minha casa. Mas não posso. Não tenho dinheiro. Não tinha ontem, não tenho hoje e, provavelmente, não terei amanhã.

Acho que muita gente talvez se identifique com essa opressão. Com a sensação de que, passada a juventude e cada vez mais conscientes da própria finitude, fomos derrotados por esse sistema. Não é revoltante ter trabalhado uma vida inteira, ter servido de suporte para tantos e, ainda assim, não ser capaz de se sustentar? De sustentar (e suportar) a própria existência?

Eu não queria estar aqui. Queria estar vivendo, não sobrevivendo. Queria estar com os amigos, fazendo planos de viagem com meu filho, tirando férias que realmente fossem um escape ou simplesmente programando alguns rolês. Queria outros horizontes, outras experiências.

Sonho acordado, porque já não durmo mais. Após noites de insônia, arrasto meus dias entre a sensação de abandono, o vazio do ser e a dor do estar. Já é difícil não ser quem se gostaria de ser; mais difícil ainda é não poder estar onde se gostaria de estar, com quem se gostaria de estar.

Às vezes, queria ser ignorante. Ou não ter experimentado sequer um pouco do mundo, porque esse pouco que conheci foi suficiente para me deixar saudoso. Mas voltar para a Caverna de Platão já não é uma opção.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Endecha

É tarde da noite e a insônia é minha única companhia, além de mim. É algo novo, não dormir. Perdi o controle sobre um dos poucos prazeres que me restavam, senão o único. E quando durmo, não descanso. Uma pequena sombra paira nos meus pensamentos durante os dias, mas quando chega a noite, ela se agiganta, levando consigo meu sono e minha paz.

Enquanto todos se reúnem, comemoram e brindam, eu blindo. Tento me proteger da felicidade alheia que tanto me faz falta. Mas eu não consigo. Então eu tento encontrar um pouco de alívio vendo onde essas palavras podem me levar, mas elas não se mostram sinceras. Meus textos, com sua tristeza insossa, vaga e repetitiva são eufemismos para a dor que ecoa no vazio da minha existência.

Eu queria tanto estar presente que me afoguei esperando por um convite. Mas agora tenho medo. Medo de ser quem eu sou. Acho que a solidão é como um câncer, as chances de vencê-la são mais fortes no início. Onde estavam todos quando eu mais precisei? Ah, sim, reunidos e festejando. 

O inferno sou eu, não os outros. Sartre estava errado.

Sozinho, não sobra nada além de encarar a sombra. Tem horas que parece que consigo escutá-la me chamando para junto dela. Para um descanso que seja realmente acolhedor. Uma ideia que cresce por entre as rachaduras escuras da minha alma, tomando corpo. Meu corpo.

Durante o dia tento me ocupar e, em alguns raros momentos, até parece que as coisas vão melhorar. Mas quando chega a noite e a sombra se liberta ela me aprisiona em labirintos mentais que evocam dor e mágoa, cuja saída parece não existir. Para que continuar? Por que postergar? Por que esperar dia após dia por novas frustrações, novas expectativas quebradas, novas mágoas? Magoar e ser magoado, sofrer e causar sofrimento.

A vida segue, mas só pra quem vive.

domingo, 26 de julho de 2026

Crime e castigo

Não é estranho que as pessoas se preocupem com aquilo que pensamos? Falo isso num nível de querer tolher ou até mesmo controlar o que alguém possa pensar ou sentir. Ou desejar. Como é que eu vou exercer algum controle sobre o que outra pessoa pensa ou deseja se eu mesmo sou incapaz de controlar meus próprios pensamentos ou desejos?

Isso não afasta, por outro lado, a responsabilidade pelo que fazemos diante das nossas inspirações interiores. Somos, sempre, responsáveis por tudo aquilo que conscientemente materializamos. Muitas vezes não somos fortes o suficiente para não sucumbir aos nossos mais íntimos desejos. Mas força e responsabilidade são grandezas que não se comunicam.

No Direito, quando falamos em responsabilidade não falamos em sermos prudentes e tudo aquilo que envolve "ter juízo". Não. Para o direito, responsabilidade diz respeito a arcar com as consequências dos erros que você comete. Ser responsável, para a lei, é ser juridicamente capaz de arcar com as consequências de um ato ilícito.

Na vida somos responsáveis pelos nossos desvios, pelas nossas imoralidades. Cabe a nós, a sós, pagar pelos erros. Na solidão do eu, no vazio da própria existência. Não é apenas o Direito que vive de julgamentos, a vida é um julgar-se e estar presente à corte. Eu? Sou réu confesso. 

domingo, 19 de julho de 2026

Nothingman

Por que é que, não importam as conquistas de uma vida, prevalece a sensação de derrota?

Não que eu tenha muitas "vitórias" nos últimos tempos, mas quando me forço a fazer algum tipo de balanço, no final das contas me vejo como um grande perdedor. 

Tenho medo de chegar ao fim da vida e me ver como uma daquelas séries que termina mal, que todos odeiam o final. Embora, justiça seja feita, os capítulos atuais já andam de mal a pior.

O que me dá esperança é o fato de não saber se estou no fim dessa jornada. Ao mesmo tempo, essa possibilidade também me assusta. Mas, sei lá porque, não me aterroriza. Porque, às vezes, uma série curta é melhor do que aquelas que se esticam buscando uma glória que só pertence ao passado.

Lost? Me sinto perdido. The Walking Dead? Como um zumbi, me vejo sem perspectiva ou objetivo. Dark? Me vejo preso num ciclo obscuro de dor e mágoas.

Não... Minha vida não é um roteiro tão envolvente, ainda que caminhe para um fim trágico. Resta esperar pelo plot twist. Mas, na minha atual situação, aceito até um deus ex machina.

sábado, 18 de julho de 2026

Pink & Floid & Ross year

Suavemente entorpecido, é como estou. Sempre tive a curiosidade de me registrar neste estado, de falar comigo mesmo pelas palavras escritas em primeira pessoa (ou em terceira?) do singular eu, aquele que desesperadamente luta contra e favor, pois, inebriado de liberdade, procura o seu ser, o ser seu. Eu sou meu? 

Ou eu sou do mundo, sou o mundo? Um pequeno pedaço do todo, uma parte. Aparte: uma fração do universo consciente de si. Eu sou meu? Se sou o universo em parte, o universo a si pertence?

É Feynman ou é Sartre? 

Fração, potência. Raiz e resultado. Meu sentidos me traem. Meus sentimentos me traem. Eu me engano? É auto engano? É autoconsciência!

Meus sentimentos me traem e meus sentidos atraem o tempo. Paralisa a ampulheta. Parece que escrevo há horas, mas foram segundos. Pareciam páginas, mas foram só parágrafos. 

Uma única coisa é certa: são lerei. Mas não sei se seria lúcido publicar. Mas não é que publiquei?

domingo, 12 de julho de 2026

Náufrago

Hoje é domingo, 12 de julho de 2026 — pelo menos para mim, enquanto escrevo este pequeno “diário”. Para quem eventualmente se deparar com este texto, porém, pode ser uma quarta-feira qualquer, de qualquer mês ou ano.

Já disse, aqui mesmo, que meus textos são como pequenas mensagens engarrafadas que lanço neste imenso e já poluído oceano que chamamos de internet. Na época, meados de 2010, já havia muita sujeira. Mas nada se compara ao meu “hoje”, que presumo ser ainda pior no seu “hoje”, caso esse dia chegue. Atualmente, além do lixo humano, há também muito entulho criado em escala industrial pela inteligência artificial.

Então eu presumo que fique cada vez mais raro ter uma garrafa içada, o que me transmite a ideia de estar falando sozinho. Bem, nada demais. Sou adepto do hábito de falar comigo mesmo; por que não escrever também para mim?

Ainda mais quando não se tem ninguém presente para compartilhar ideias ou mesmo pequenas amenidades de um dia comum. Ou melhor, de aparência externa comum. Então, cá estou, olhando para meu reflexo nestes caracteres. E nele vejo o rosto da solidão. 

Não é irônico falar de solidão para si mesmo?

Ontem foi sábado. Passei o dia inteiro sozinho em casa, sem trocar palavras com ninguém, exceto pela fria e nociva tela do celular. Hoje, a mesma coisa, senão pela expectativa (frustrada, que sina) de uma visita prometida que não veio. Mas não é novidade. Outras pessoas também me deixaram a promessa de "dar uma passadinha" e não cumpriram.

Mas talvez eu entenda; eu ter que passar dois dias inteiros sozinho comigo me faz ver que é um programa realmente desagradável e, agora, começo a entender a ausência. Eu achava que era capaz de esconder estas minhas fraturas existenciais mas cada vez mais percebo que minha autocomiseração é evidente e, é claro, isso afasta as pessoas. Se eu pudesse, eu também me afastaria de mim e iria viver dentro de um parêntese existencial.

Mais digno do que querer alguém perto por obrigação ou pena.

Mas nada disso é possível. Então, que venha a segunda-feira e suas rotinas burocráticas para me salvar de mim mesmo. 


sábado, 11 de julho de 2026

HMS Erebus

Uma temática comum nos meus textos é tentar (me) responder por que é que eu (ainda) escrevo. Por que manter um blog ou um perfil no Medium para publicar textos que não serão lidos por praticamente ninguém? Ora, isso é relativamente fácil de responder: porque eu preciso. 

Agora vem a parte mais complexa que é destrinchar essa resposta. Eu preciso porque eu escrevo, antes de qualquer público, para mim mesmo. Talvez eu pudesse ter respondido que eu escrevo para mim e, na explicação, trazer o ponto da necessidade. 

Eu realmente não sei se a ordem dos fatores altera o resultado. Mas sei que estão intimamente ligados entre si. 

Meus textos são, antes de tudo, uma válvula de escape. Uma leitura (que não precisa nem ser atenta) vai notar que escrevo sobre meus sentimentos mais sombrios, minhas dores mais lacerantes. Ansiedade,  frustração, culpa ou remorso. Mas a verdade é que eu não escrevo, eu os ponho pra fora.

São sentimentos que brotam e se acumulam em meu ser e sou incapaz de suportar, de aprisionar dentro de mim sem que me destruam por completo. É a minha terapia; é como eu me livro, ao menos temporariamente, deles.

É por isso que não espero que haja leitores, senão aqueles poucos que, como eu, se sentem atraídos ou então conectados com essas sensações. Expiar as dores espiando as dores. Alheias.

Escrever, neste estado, é jogar pra fora toda uma gama de sentimentos que entorpecem o meu ser, que sujam a minha alma, que tornam opaca a minha existência. Aos poucos, elas vão saindo e a luz vai encontrando espaço para retornar. 

E quando eu termino um desses textos, me sinto vazio. E entre o vazio e estar cheio de dores, o nada se torna agradável. É trégua. Ainda que seja apenas uma sensação efêmera, pois logo essas dores começam a me inundar novamente.

Ainda não encontrei o buraco em mim por onde esse sofrimento me invade, mas continuo esvaziando esta nau com meus baldes e canecas, textos e palavras. E eu sou o capitão desta embarcação, ou a salvo, ou afundo com ela.

Entende agora?


sexta-feira, 10 de julho de 2026

A estação

Muita gente elege o filme "O Poderoso Chefão" como um dos melhores filmes de todos os tempos. Eu não lhes tiro a razão porque o filme realmente é uma obra-prima. Mas (sempre muito cuidado para tudo que vem depois do "mas"...) eu tenho um carinho maior pelo segundo filme e é por isso que me recuso a escolher entre um deles.

E eu só estou falando disso porque, nesse filme, há uma passagem em que Michael Corleone fala sobre ter os amigos perto e os inimigos mais perto ainda. E essa ideia — maquiavélica, por sinal — parece estar sendo levada muito a sério por este que vos escreve. Quem, neste mundo, é mais próximo de mim do que eu mesmo?

Sim, sou meu pior inimigo.

Ninguém é capaz de me destruir com tanta facilidade quanto eu mesmo. Todos nós sabemos que os piores golpes e as piores traições sempre vêm dos amigos mais próximos e, neste caso, não há alguém que ocupe essa posição melhor que eu.

Sou capaz de criar as maiores expectativas, como subir ao Everest, mas morrer com elas no trajeto, seja na ida ou então na volta — o que traz até um toque refinado de sarcasmo que só a vida nos ensina. Ou deveria ensinar. No alto dos meus 45 anos (bem alto mesmo, quase virando 46), eu ainda não aprendi a lidar com a ansiedade e as expectativas.

Uma coisa leva a outra. Ansiedade à expectativa e expectativa à ansiedade, num ciclo vicioso de retroalimentação.

As expectativas, por si só, não são sempre ruins; são necessárias e muitas vezes combustível para sonhar, para viver. Já a ansiedade também é um combustível, mas de uma volatilidade e capacidade de combustão que queima até a alma, inclusive daqueles que não creem em almas.

Ansiedade vicia. Toma conta do seu ser e consome o seu querer, o seu desejar. Te faz ser uma pessoa incapaz de ouvir a razão e aqueles que te amam. Ela pega na sua mão e te faz ser odiado por todos, inclusive por você mesmo. É, no momento, eu me odeio.

Eu não magoo só as pessoas que eu amo, eu magoo a mim mesmo. Porque uma coisa leva à outra. Amar e ser amado, odiar e ser odiado. Tudo isso acontecendo às cegas, à revelia do seu próprio saber. Do meu saber, porque os outros veem. Quem não enxerga sou eu.

Aos poucos, cada vez mais solitário. Mas não sozinho, porque tenho sempre a minha companhia. "Antes só do que mal acompanhado", eu defendo. Mas como se defender, como se desvencilhar de si mesmo? Um a um, todos se vão. Eu fico, como o guarda da estação de trem, que nunca embarca em busca da própria felicidade porque tem outros compromissos.

Eu queria enviar esse meu eu para longe. Para nunca mais me machucar. Para nunca mais deixar que me machuquem. Mas eu não consigo.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Ser só ou só ser?

Sempre gostei de ser subestimado porque, de certa forma, essa sensação era um impulso que motivava superar expectativas. O que eu nunca curti muito foi ser superestimado. Especialmente quando EU sou responsável pelas minhas próprias expectativas. Quando eu mesmo me coloco num patamar cuja queda dói, e muito.

Cá, eu, aqui, de novo. Triste, solitário e não menos responsável por tudo de ruim que me cerca. Sou culpado. Assim como sou culpado de acreditar ser uma boa companhia. Sou não, nem para mim mesmo.

Porque a solidão de verdade não é estar sozinho; eu sempre gostei de estar sozinho. Solidão é sentir-se abandonado em sua própria dor. Não por quem machucamos, mas por todos aqueles que gostamos de compartilhar o estar, o ser. Sentir falta de quem sinta a nossa ausência. Mas de quem sente de forma sincera, não meramente protocolar. 

Eu já me deparei com o "luto protocolar" mais vezes, nessa vida, do que eu gostaria e, por questões sentimentais e nem um pouco racionais, sinto paralelos. Na verdade, eu sinto muito, sinto demais. Acho que sinto até pelos que não sentem. Não me sentem. Sinto-me vazio e me pergunto: será que eu, que me conheço tão bem, me importaria comigo mesmo?

Sinceramente? Eu tenho medo da minha própria resposta.