Eu queria sair. Sei lá, tomar uma cerveja, comer alguma coisa. Ou simplesmente comprar alguns pequenos itens de que preciso para a minha casa. Mas não posso. Não tenho dinheiro. Não tinha ontem, não tenho hoje e, provavelmente, não terei amanhã.
Acho que muita gente talvez se identifique com essa opressão. Com a sensação de que, passada a juventude e cada vez mais conscientes da própria finitude, fomos derrotados por esse sistema. Não é revoltante ter trabalhado uma vida inteira, ter servido de suporte para tantos e, ainda assim, não ser capaz de se sustentar? De sustentar (e suportar) a própria existência?
Eu não queria estar aqui. Queria estar vivendo, não sobrevivendo. Queria estar com os amigos, fazendo planos de viagem com meu filho, tirando férias que realmente fossem um escape ou simplesmente programando alguns rolês. Queria outros horizontes, outras experiências.
Sonho acordado, porque já não durmo mais. Após noites de insônia, arrasto meus dias entre a sensação de abandono, o vazio do ser e a dor do estar. Já é difícil não ser quem se gostaria de ser; mais difícil ainda é não poder estar onde se gostaria de estar, com quem se gostaria de estar.
Às vezes, queria ser ignorante. Ou não ter experimentado sequer um pouco do mundo, porque esse pouco que conheci foi suficiente para me deixar saudoso. Mas voltar para a Caverna de Platão já não é uma opção.