quarta-feira, 8 de abril de 2015

Idílicas notícias etílicas II



DOCE:
Asfalto mouraoense faz parte do cartel de commodities!
Agência Róiters.


Após 16 meses de intensas investigações, o Procurador Adjunto da Polícia Agronômica de Campo Mourão concluiu, nesta terça-feira, 30 de setembro, o inquérito político que visava apurar a relação entre o preço do etanol e as chuvas torrenciais que afetavam o nosso município.

Graças à delação premiada de um vendedor de algodão doce que fica o dia inteiro em frente ao portão leste do Parque das Torres com um carrinho verde-limão (cuja identidade é mantida em sigilo para sua própria segurança) a equipe de investigação descobriu um esquema fraudulento entre a Secretaria Municipal de Recapes Rotativos e a COCA — Corretora Orgânica de Commodities Associados.

O esquema funcionava da seguinte forma: açúcar é o principal ingrediente, digo, insumo utilizado para dar liga no asfalto mouraoense. Com isto, a cada chuva, todo o asfalto vai pelo esgoto, juntamente com a água, aumentando a demanda de açúcar para novos recapes. Desta forma, o preço da cana-de-açúcar dispara na bolsa, ocasionando o aumento do preço do etanol nas bombas, pois todo o açúcar produzido na região é destinado às operações de tapa-buraco, garantindo o lucro da COCA.

A descoberta foi confirmada por meio de análises químicas no asfalto, feitas pelo laboratório do DDD (Departamento de Defesa dos Diabéticos). Uma contraprova foi encomendada ainda nesta manhã, e deverá ficar pronta até o início da Copa do Mundo da Rússia. Nenhum dos envolvidos quis comentar os fatos.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Israel e os 7 a 1

As proporcionalidades que Israel é capaz de nos proporcionar


“A resposta de Israel é perfeitamente proporcional. Isso não é futebol. No futebol, quando um jogo termina em empate, você acha proporcional, e quando é 7 a 1 é desproporcional. Mas não é assim na vida real e sob a lei internacional.”

Dias atrás me surpreendi com essa resposta dada pelo porta-voz de Israel, em atenção às declarações prestadas pelo Ministério de Relações Exteriores do Brasil. Na ocasião, o Itamaraty criticou “o uso desproporcional de forças pelos israelenses” no já saturado embate na Terra Santa.

Também pintou um “Anão Diplomático” nas declarações de Tel Aviv, mas considero essa ofensa menos grave, por motivos que não convém aqui mencionar, ainda mais em ano eleitoral.

Hoje, 1º de agosto de 2014, fui buscar alguns dados apenas para ter uma ideia do que Israel considera “proporcional”, na vida real e nas “leis internacionais” (?).

Zapeando alguns sites, como o da Folha de São Paulo, pude apurar que já são 1459 palestinos mortos contra 63 israelenses. O G1.com, site de notícias das organizações Globo, informa que seriam 1464 palestinos, ampla maioria de civis, contra 61 israelenses, em sua absoluta maioria, militares.

Vamos arredondar por baixo as baixas — o que é uma puta falta de respeito com qualquer vida, eu concordo — mas apenas para evitar hipérboles desnecessárias no “cálculo da proporcionalidade de Israel”.

Se levarmos em conta a “ampla maioria de civis”, entre os quais encontramos muitas crianças, podemos dizer que pelo menos setecentos civis já foram mortos por Israel. Já as informações de baixas civis do lado judeu não chegam a sete, mas fixemos esse número, tão especial para a cabala e a cultura hebraica.

700 a 7. Cem por um. Eis um dado “bastante proporcional” de um “conflito justo” aos olhos dos nossos amigos monoteístas. Isto nos cálculos atenuados deste que vos fala, pois a proporcionalidade deve estar mais próxima dos mil por um. Mesmo arredondando para baixo, não foi possível evitar a hipérbole, embora o exagero, neste caso, não seja apenas uma figura de linguagem.

Proporções à parte, a declaração de Israel me deixou mais chocado do que os números, em si. Não pela rispidez, afinal, essas palavras não ferem tanto quanto os bombardeios em escolas da ONU.

É a frieza de quem compara vidas a gols, como se matar fosse um esporte.

Pois é assim que Israel encara o “jogo”. Como uma pelada de fim de semana. Chamar o Brasil de “anão diplomático” até pode fazer sentido, mas fazer de uma derrota esportiva uma piada para justificar um genocídio, aí já transcende o macabro.

O humor judaico faz o humor negro parecer musical infantil. E a nós resta continuar assistindo esse filme de terror — ou mudar de canal e fazer de conta que vivemos em outro mundo, onde os “7 a 1" causam traumas às nossas pobres crianças indefesas.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Lá e cá, outra vez

Decidi que não devo deixar para trás esse blog. Embora tenha criado uma conta no Medium e publicado meus últimos textos lá, acho que, pelo histórico de postagens aqui, devo, no mínimo, manter esse meu cantinho vivo e atualizado.

Por isso, irei fazer o caminho reverso: trazer do Medium para cá minhas últimas postagens.

Tenho uma pequena história de carinho com o blogger. Aqui foi o primeiro espaço onde criei coragem para expor muitas das minhas divagações, sentimento, ideias etc.

Ainda mais nestes tempos em que, aparentemente, reina a solidão nos bons e velhos blogs. Será que alguém ainda aparece por aqui? Talvez sim, talvez não... mas esse silêncio é ainda mais incentivador, porque nos dá a segurança de sermos mais livres para criar.

Por isso, digo: estou de volta.

Divagar, devagar e sempre!

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Mudanças

Saudações, amigos leitores e escritores.

Como tudo na vida encontra suas mudanças, cá estou eu a anunciar a minha.

Estou meio afastado do blog, um pouco por causa do tempo, outro pouco por relaxo e outro tantinho por falta de inspiração mesmo.

Eu optei, recentemente, por aderir a uma rede social para escritores (amadores, como eu, e profissionais, como muitos outros lá). Chama-se Medium. Aliás, recomendo muito, pode-se usar o login do Twitter ou do Facebook.

Aos poucos, irei repostar lá meus textos daqui, bem como postar outras novas insanidades, também por aquelas bandas.

Meu endereço lá é: http://medium.com/@TassioDenker

Nos vemos lá!

Abraços a todos.

quarta-feira, 28 de março de 2012

A arte de não dizer nada


Comece divagando. Seja o mais abstrato possível, contornando assuntos contrastantes, vagos e difusos. Questione, pergunte ao leitor. Faça afirmações pseudocoerentes e questione novamente ao fim. E responda o primeiro parágrafo, com uma palavra. Mas não uma palavra que seja realmente a resposta. Apenas uma que o prenderá ainda mais no texto. Mas como? Assim. 

Depois, direcione o texto para aquilo que quer mais chamar a atenção. Vá estreitando o leque de assuntos, focando o alvo. Mas não chegue nele tão rápido. Vá por interpolação, pelas tangentes. Arrisque uma oração óbvia, manjada, com a qual o leitor poderá se identificar. 

Sabe aquele sentimento de conhecimento abstrato que você possui, que você sabe o que é? É exatamente este sentimento que você deve instigar na pessoa que estiver lendo seu texto. Tente exteriorizar o que você pensa de maneira abrangente, procurando causar efeito de entendimento da mesma maneira que você sabe que você sente saber. 

Dê voltas, prepare o leitor para entendê-lo. Essa preparação deve ser feita enquanto você estiver afunilando o tema. Você sente o conceito e precisa fazê-lo sentir, o que só será possível após ele compreender corretamente as suas dicas.

O clímax é quando você finalmente diz, de maneira concisa, aquilo que o leitor já estava esperando. Ele se surpreende, quando na verdade era aquilo que esperava. O óbvio. Você tinha dado as dicas. Você o tinha preparado. Já havia dito, de maneira indireta, pela forma como conduzira a argumentação, nos parágrafos anteriores. 

Com a simpatia ou apenas a concordância do leitor, quando estiver ele compreendendo corretamente, sintonizado com sua proposta, sem dúvida quanto ao mérito, então você poderá ousar. Surpreender de verdade. Qualquer coisa que tenha uma semelhança, um elo, pode ser arguido. Até mesmo uma falácia. Parecerá um gênio. “Nunca tinha percebido isso” é a resposta perfeita que ele poderá pensar. 

Seja um pouco redundante, para que ele possa digerir a conexão dos assuntos. Dê dois exemplos, mostre na prática. Use analogias. Faça com que, ao longo deste parágrafo, se torne familiar tal conexão, para que não paire aquela sensação de absurdo. 

O gran finale. Você começou abstratamente, divagando em perguntas aparentemente sem nexo, mas que foram indiretamente respondidas ao longo do texto. Ou seja: se ele voltasse ao primeiro parágrafo, o que não fará enquanto não terminar de ler, encontraria todas as respostas implícitas no texto. Agora, do nada, responda uma das perguntas formuladas no começo. Ou então duas, com uma única afirmação. E não precisa repetir a pergunta, apenas responda. Uma afirmação aparentemente perdida. Soa misterioso, sábio e conclusivo. 

Desta forma, você conseguirá prender a atenção do leitor, e, sejam sofismas, sejam verdades, você o enganou. Como eu agora, sem dizer nada. Sem ensinar nada. Sem acrescentar nada. Apenas pelo prazer de tomar seu tempo e fazê-lo gastar comigo. Foi mal aí.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Subjetividades objetivas

Ah, que saudades desse lugarzinho. Meu cantinho da insanidade, do desabafo, delírio e subjetividade. Desde sempre, me disseram, ensinaram e cobraram: seja claro e objetivo. Eis aí, nestes conselhos, as maiores dificuldades que ainda devo superar, na qualidade de "escritor" (uma hipérbole e entre aspas).

Desde que dei por mim, escrevendo, nunca fui muito objetivo. No meu trabalho, até me esforço. Mas nos meus textos, na minha "redação pessoal", ah, aí sempre foi difícil. Ainda mais com meu especial dom de perder o foco dentro de um determinado texto. Recobrando a razão, nem é sobre meu "estilo literário" que quero escrever.

Hoje, eu quero julgar. Mas talvez seja mais adequado dizer - quero classificar. Classificar você.

Tarefa árdua, complexa e ingrata. Como classificar uma pessoa? Escolhendo um parâmetro. E o parâmetro, paradigma deste texto, não é a etnia, o clube de futebol, religião, beleza ou gosto culinário. É a objetividade ou a subjetividade da natureza de cada pessoa.

Tive esse insight quando assistia a um filme chamado "Se enlouquecer não se apaixone" (título original - It’s Kind of a Funny Story). Mas o filme pouco importa, foi apenas um comprimido de LSD para o delírio que vem a seguir.

Ao que interessa... arrisco dizer que existem três tipos de pessoas: as objetivas, as subjetivas e todas as demais, que flutuam num meio-termo até hoje inominado por este que vos fala.

As pessoas objetivas são aquelas que tornam tudo mais simples, fácil. Decidem, quase sempre no impulso. Não tem tempo ruim, não tem sopesares, não existem outras pessoas para se levar em conta. Levam a vida com mais leveza na mesma proporção em que tropeçam e caem. E levantam.

Os objetivos têm uma enorme dificuldade em lidar com as diferenças, em especial aceitá-las. Quando programam um evento, um cinema ou uma viagem, usam a si mesmos como parâmetros. Exatamente por serem débeis na arte de compreender a subjetividade dos demais, levam em conta o que acham que é bom. Suicídio, para os objetivos, é uma loucura. Gastam tão pouco tempo consigo mesmos, imersas em seus pensamentos, que sofrem depressão aguda toda vez que ficam sozinhas por algumas horas.

Sabe aquele cara descolado do colégio, que todo mundo gosta? Aquele mesmo, que não consegue entender que aquele amigo calado também sabe curtir a vida. Só que de outro jeito. Ele nunca vai entender, por exemplo, por que você quis ficar em casa ao invés de curtir "a" balada da semana.

No outro lado do pêndulo estão os subjetivistas. Ah, os subjetivistas. Fazem de qualquer escolha uma decisão espiritual, existencial. Gostam de levar em conta os detalhes, os gostos e as opiniões alheias. Isso quando as perguntam, pois a subjetividade geralmente os faz refletir mais do que falar.

Suas escolhas não são simples. Também, pudera. Quantas pessoas ele pode afetar com sua decisão? Vou locar um filme, mas qual? Fulano não gosta disso, beltrano prefere aquilo. Que lugar ir? Joãozinho não tem dinheiro para acompanhar essa festa, tenho que pensar em outra opção. Se eu escolher um restaurante à beira-mar, a brisa gelada pode piorar a febre do Zezinho.

Os subjetivos são reféns. Reféns de suas escolhas, escravos das suas dúvidas, quase sempre sujeitos passivos em suas próprias vidas. Quando muito, importantes coadjuvantes que se empenham no brilho estelar de seus amigos cativantes, simpáticos e tão... objetivos.

Introspectivos, reflexivos, observadores e, quase sempre, melancólicos. 

Falta ainda falar da "terceira classe", aqueles que se encontram no limbo não muito claro que permeia ambas as personalidades antagônicas. Aqueles cujo pêndulo não alcança as extremidades, graças ao equilíbrio. Mas... acho que não será mais necessário.








segunda-feira, 23 de maio de 2011

Apologias e Analogias


Prometi para mim mesmo que, neste cantinho, neste espaço, ficarei longe, muito longe, das temáticas que envolvem o direito, minha formação acadêmica. O direito só não consegue ser mais chato porque o próprio advogado, muitas vezes, chama essa responsabilidade para si.

Brincadeiras à parte, este espaço eu reservo para fugir do trabalho e das temáticas que o envolvem. O uso como um ombro amigo, uma tribuna de insanidades ou mesmo como um divã. Hoje, quero desabafar. E tentarei manter distância do direito e honrar minha palavra.

De direito, compartilharia apenas o fato de que existem muitas leis inúteis e isso não é nenhuma novidade. Estes termos mais gerais, que pertencem ao senso comum, são as únicas exceções da seara jurídica que utilizarei.

A quem pertence o conhecimento? A quem pertence a cultura? Afinal, o que é cultura? (cortei tão abruptamente o tema, mas foi necessário, me desculpem). Uma definição bem genérica afirma que cultura é o complexo de informações que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade.

E a quem isso pertence? Uma obra, uma teoria, um filme, um livro, enfim, qualquer elemento cultural, a quem pertence? Ao autor? A quem compra? Ou à humanidade?

Estamos diante de um grande debate, de um grande dilema. Talvez alguns mais perspicazes tenham percebido o rumo que este texto irá tomar. Que este autor irá tomar. Tomar um partido.

Pirataria é crime. E, de fato, concordo que seja uma atividade ilícita “lucrar” com a obra alheia. Mas acho que pirataria merece um estudo mais amplo, mais específico. Afinal, quando se fala em piratear, parece que as indústrias de CDs falsos e os internautas que fazem downloads são todos "farinha do mesmo saco".

É como se os grandes traficantes e os usuários de drogas fossem criminosos da mesma natureza. Opa, “pera lá”, que boa analogia... afinal, já até “despenalizaram” os usuários de drogas. Em outros termos, nem são mais “criminosos” aqueles que apenas usam drogas. Agora, quem “consome” cultura é criminoso?

Conhecimento, saber, cultura... eis aí uma busca incessante da humanidade. É um direito inato do homem. Tão importante quanto a liberdade, quanto viver, é a busca pelo conhecimento. Cursos, cinema, colégios, teatro, faculdade, literatura, música... é mais que natural que o homem busque cultura, conhecimento e lazer.

Eu posso consumir maconha, cocaína, eu posso fumar crack ou óxi, mas eu não posso consumir um filme, ler um livro, assistir um seriado ou escutar algumas músicas?

Ora, não estou “lucrando” com nada disso. Não estou explorando comercialmente nenhum destes conteúdos. Estou, no máximo, me engrandecendo enquanto ser humano, adquirindo conhecimento, tendo experiências emocionais, afetivas, adquirindo “repertório”, conhecendo outras culturas etc. E por isso, sou criminoso?

Os autores merecem e devem ser ressarcidos por suas obras. Mas existem diversas formas de se incentivar o ganho autoral. TVs e rádios são gratuitos, de livre acesso. Ninguém paga para ver uma TV aberta, e ela tem a sua fonte de renda. Grandes portais da internet também são gratuitos e exploram seus ganhos com publicidade.

Pirataria musical não diminuiu o interesse do público pelos shows ao vivo de seus artistas favoritos. Aliás, muitos se consagraram graças à troca gratuita de suas músicas na internet.

Ou seja, existem alternativas. Até reverem essa política de pirataria, considerem-me um fora-da-lei.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Parem o ano que eu quero descer


“Esse ano está passando rápido”. Eis aí uma frase bem comum, que quase todos nós compartilhamos, em algum momento da vida. Principalmente quando vemos que o tempo não vem sendo assim tão... camarada. 

E mais. Posso dizer ainda que a cada ano que passa, essa sensação fica mais evidente. O ano retrasado passou rápido. O passado, voou. Esse, nem vi passar. Nem esperem pelo ano que vem. Quando menos perceberem, já estarão na década seguinte. 

Mas por quê? O que vem acontecendo? Eu parei para pensar e, para o azar de vocês, cheguei a uma conclusão... (um minuto de silêncio para aqueles que, em sã consciência, estão fechando o navegador e se retirando do blog...): Proporcionalidade. 

Tá, parece um palavrão. Aliás, é um “palavrão” – são 17 (!) letras. Mas tem muito a ver com relatividade. Nada de Einstein, não se preocupem. Apenas um pouquinho de lógica matemática implícita no contexto. 

Dá para traduzir? Acho que dá. Vejamos: 

Quando temos 7, 8, 10 anos de idade, qualquer "um ano" é uma eternidade. Também pudera. Quando se tem 10, um ano equivale a 10% de todo seu tempo de vida. É aqui que entra a proporcionalidade. Quando se tem 7, ele equivale a quase 15%. Quando se tem trinta anos, por outro lado, um aninho equivale apenas a 3,5%, aproximadamente. E quando se tem 70, um ano não chega a representar 1,5% do tempo de vida que já se viveu. 

Matemática é um saco, eu concordo. Mas não podia deixar de mencionar tais números, no parágrafo passado. A verdade é que, com o passar dos anos, o próprio ano fica proporcionalmente menor para as pessoas. E menos importante. 

Vejam o início de um namoro, por exemplo. No começo, comemoram-se semanas, meses. Um ano, dois. Casamento. Depois de um tempo, dez anos de casado. Bodas de prata. Bodas de ouro. Os “marcos” passam a ser comemorados de 25 em 25 anos. 

O que é um ano a mais, um ano a menos, para os “supercentenários?” E para os tão badalados “vampiros”, que cruzaram a eternidade, diretamente dos contos medievais às três dimensões do cinema?

É, o tempo e suas fascinantes magias. Guardo uma eternidade dentro de cada lembrança. E uma lembrança dentro de cada lágrima, em cada sorriso. E nem todos os anos que me restam serão suficientes para expô-las.


PS.: Se você contou a quantidade de letras que a palavra "proporcionalidade" tem, bem-vindo ao clube.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Do "eu" ao mundo

Me peguei pensando: por que é que escrevo tanto sobre o “eu” de cada um de nós? Pois é, sempre que penso demais, acabo aqui, nesta pequena ilhota, cantinho do pleonasmo, refúgio da antítese, meu blog. E de cacofonias, como o título deste texto.

Ao escrever sobre o “eu”, sobre tristezas e alegrias, sobre desejos e responsabilidades, me privo de abrir o leque e abordar outros temas mundanos. Fico sempre nesse laço, nesse nó, nesses “nós” que amarram tantos “eus”. Existencialismo, felicidade, o hábito de escrever. Sonhos, medo de acordar. Reflexões pessoais sobre relações diretas, sobre a vida, sobre a morte.

Por que nunca falo do todo? Por que nunca falo de política, de economia, por que não falo de direito, de história, das notícias da atualidade? Talvez porque não me sinta assim, tão globalizado. “Cidadão do mundo” me assusta um pouco. Me faz ainda mais pequeno. Ou então, justificaria, por falta de critério. Ahm?

“O homem é a medida de todas as coisas”. Essa frase, vinda de um “sofista”, não deveria inspirar tanta confiança. Mas serve de desculpa, se é que me entendem. Se não deu para entender, não tem problema. Nem eu entendi ainda.

Mas creio que seria algo mais ou menos assim: vivo em um verdadeiro pêndulo existencial. “Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto”. De fato, como já disse Renato Russo, eu também não sei quem sou. Meus textos, aí, confirmam – careço de rótulos.

E, se não sei nem ao certo quem sou, como “me usarei” de medida para o que se passa ao meu redor?

Todos os conceitos que fazemos do “macro”, dos temas globalizados ou regionalizados partem de pressupostos particulares. Partem de um micro. De algum “eu” perdido neste planeta. E eu, autor e narrador desta divagação, não possuo critérios. Não tenho conceitos de mim. Não sabe quem sou ou o que sou.

Por isso evito tais temas. Restrinjo-me a mim, a você e aos “eus” que também se sentem perdidos. Como escrever sobre o mundo se não sei ao certo o que se passa dentro de mim? O mundo acontece, mas lá fora. Eu, aqui dentro. E ainda não me senti adulto o suficiente para abrir essa porta e explorar o horizonte.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

De volta ao lar


Voltei a sentir, com certa nostalgia, uma inquietação, um distúrbio no estado de espírito, que me faz sentir culpado pela não atenção ao hábito (de outrora) de escrever meus malfadados textos.

Há dias em que essa sensação pulsa em meu âmago. Nos primeiros dias, pensei: “deve passar”. Mas esse passageiro não embarcou nem se deixou ser despachado. Permanece ali, inquieto, aguardando ver seu desejo atendido. “Faz tempo que eu não escrevo nada”, voltei a cogitar. Surpreendi-me, então, com uma faísca de certeza. Era ele, ali, acenando positivamente.

Hoje, com certa timidez, desacostumado, me flagro aqui, discorrendo estas notas existencialistas, sobre abstrações que em nada acrescentam ao nosso dia-a-dia. Confesso, um pouco contrariado, que faço desse texto um desabafo, ou melhor, uma vã tentativa de me enganar e satisfazer esse ego, às vezes egoísta, às vezes altruísta. Ou em um ponto qualquer entre esses dois valores antagônicos e tão satisfatórios. Pelo menos creio eu que nos faz realmente bem ser ora egoístas, ora altruístas.

Mas não é sobre isso que eu quero discorrer. Na verdade, não quero falar sobre nada, só quero desabafar. O problema é que nem ao certo sei sobre o que eu quero desabafar. Na verdade, eu precisava escrever algo. Minhas manias. Escrever para alguém. Ou então, para ninguém - minha especialidade.

E o que escrever? Que ao menos, eu tentei?

Acho que hoje, por mais que me sinta intuído a escrever, não me sinto inspirado. Ou, talvez, em mais uma megalomaníaca forma de escusa, esteja inspirado demais, a ponto de que tanta informação, tanta sede, tanta vontade faça com que as ideias acabem por se misturar, se confundir e se encerrar no caos que é a minha mente.

A realidade é que eu não tenho nenhum dom, nenhum talento, mas gosto de me enganar com a ideia de um potencial latente. Daqueles que, quando precisam, na hora do aperto, fazem tudo do bom e do melhor. Enquanto isso, fico aqui, deitado, vendo o mundo acontecer, observando passivamente a história. “Quando chegar a minha vez, eu dou conta” — penso, ou melhor, me engano.



segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sono?


Ah, dormir…

Não consigo me acostumar com a ideia de que algumas pessoas não gostam de dormir. Eu amo dormir.

Entregar-se àquela cama, macia e reconfortante, que te recebe com um abraço todas as noites. Esquecer os problemas do dia a dia, do ritmo frenético que se impõe à nossa consciência. Relaxar todos os músculos do corpo e perder, aos poucos, a consciência...

Ah, a doce perda da consciência... imergir delicadamente na escuridão total, libertar a mente da cansativa lógica mundana, das convenções abstratas, sem preocupações, sem prazos. Arrebatar-se suavemente, aconchegar-se e esquecer a constante luta contra a gravidade. Deixar o silêncio ocupar toda sua mente.

Cada sono tem sua eternidade, por mais efêmero que seja.

Eis que então... então vem o despertador! Essa máquina maldita que mede, que mensura nosso sono. Esse carcereiro do descanso, que mantém sempre um vínculo com o mundo externo, o tempo.

Acordar é sofrer. É trazer à tona a consciência trôpega, pura e cristalina, e lançá-la neste mundo de dor, de barulho, de incessantes luzes. Ativar, à força, todas as terminações nervosas, o olfato, a visão, a audição, o tato. É voltar a sentir todas as dores, crônicas e agudas.

É como se fôssemos mergulhados em água gelada, sem dó nem piedade e, num estalar de dedos, nosso cérebro fosse entulhado de novas informações. Imagens, sons, cores, lembranças, compromissos, escola, trabalho... Acordar é nascer de novo, todos os dias. Agora entendo a dor, o choro do recém-nascido. Acordar, nascer... doem!

Acordo todos os dias e a primeira coisa em que penso é exatamente a hora em que irei dormir novamente. Dormir é tão bom que, quando lembro daquela velha metáfora sobre o sono eterno, a morte não me parece nem um pouco ruim.

Poderia ainda dizer que... ah, droga, meu celular despertou... lá vamos nós de novo!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

À sua imagem, minha semelhança


Não me interessa quem eu sou. Ainda insisto no velho erro de tentar me definir. Logo eu, falando sobre mim, que incoerência.

Eu sou aquele velho retrato, preto-e-branco, em alguma prateleira na casa da sua avó. Sou aquele antigo disco de vinil, esquecido na caixa de algum guarda-roupa. Ou apenas mais um blog, chato e maçante, em meio a tantos vídeos e músicas que rolam na internet.

Não perca seu tempo querendo me entender. Já basta o tempo que eu perdi. Eu não quero ser, quero apenas estar. Não tenho rótulos, sou uma garrafa vazia, me encho com o que você me dá.

Fique à vontade para me rotular, sou exatamente aquilo que você acha que eu sou. Olhe atentamente nos meus olhos. Olhe, julgue, rotule. E verá você. Porque eu, eu não sou ninguém. Eu sou apenas o seu espelho.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Hoje não


Deixem-me em paz. Tudo que eu quero é me fechar no meu mundo, me curtir na solidão dos meus pensamentos. Quero sentir a lágrima que desce pela minha face, gelada, fazendo seu caminho rumo ao solo. Quero mergulhar o rosto no travesseiro, e gritar sem ser ouvido.

Quero morrer por um dia. Quero viver esse vazio que me enche o peito. Quero gozar essa tristeza, e me sufocar com essa melancolia. Quero sentir a raiva do mundo, me sentir culpado, me sentir injustiçado. Quero explodir em ódio e te culpar. Culpar o mundo. Culpar todo mundo.

Quero um pouco de paz e muito silêncio. Quero verter lágrimas negras, imundas, até que minha alma fique limpa, lavada, e meu choro cristalino.

Não se preocupe. Voltarei a sorrir. Desatarei este nó em minha garganta. Voltarei a viver com a pouca alegria que sempre tive. Voltarei a ver as cores que embelezam o mundo, saborear os sons que alegram o cotidiano. Sim, eu renascerei.

Mas não hoje.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Metade é muito


Às vezes penso: quanta coisa já vivi. Se fosse listar o que já me aconteceu, não saberia nem por onde começar.

Infância? Os pés descalços, os primeiros amigos, a família... a escola, as "tias", merenda, lanche, recreio... cada Natal, cada presente, cada aniversário. Cada choro, cada palmada...  Aprender a andar de bicicleta, cair, levantar. Cada série que cursei, um pequeno mundo que criei. Adolescência? Faculdade? Trabalho?

Um pequeno detalhe destranca uma porta esquecida na memória. Talvez fosse mais fácil separar as lembranças por sentidos... cada imagem, cada sabor, cada música que gostei... não, não... impossível!

As cidades, as casas em que morei, poucas, eu sei, mas ricas em lembranças, em histórias.  E as pessoas? Quantas cruzaram meu caminho? Muitas delas nem mais vivas estão...

Cada amigo que perdi, cada parente que se foi. Entre mim e cada uma das incontáveis pessoas que conheci existe um "nós". Existe um nó. Alguns, bem atados. Outros, desfeitos.

E por que penso nisso?

Talvez porque já tenha vivido tanto, mas tanto, tenha tido tantas experiências, que já se tornou impossível lembrar de todas, catalogá-las, organizá-las. E ainda reclamamos da nossa curta existência...

Vivi apenas 30 anos. Só um terço, na melhor das perspectivas. Ou quase tudo, no pior dos casos. Mas vivi. Tão intensamente que, quando tento relembrar, fico perdido, fico agradecido. Não sei o que sou, de onde vim, pra onde que vou. E por que isso importa?

Há tanto tempo aí, disponível para se viver, que sempre acaba nos folgando algum para reclamar da nossa "efêmera" existência. Efêmera? É, somos ingratos.


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Carta aberta


"Campo Mourão, 05 de junho de 2006. 

Tássio:

Furto um pequeno lapso de tempo, valioso, cabe informar, para escrever-te (ou escrever-me) um singelo recado, para que seja lido em um futuro incerto. Em outra época cobrei-me, justificadamente, que me dedicasse a escrever mais. 

Acho interessante materializar em alvas folhas de papel (ou em luminosos monitores de computador) um pouco mais do que penso, do que sinto, para que isso permita, se a alguém interessar, conhecer-me melhor. Especialmente eu. Preciso alcançar um melhor nível de autoconhecimento.

O tempo é escasso. Na ampulheta, a areia do tempo flui, escorrega por entre nossos dedos, sem que possamos retê-lo. E enquanto o tempo rouba sua juventude, você ignora aquilo que pulsa em seu âmago.

Por quê? Tem vergonha? É um ser humano, um ato falho, bobo e sentimental, que buscou, às vezes nos mais dispensáveis detalhes, a perfeição que nunca, NUNCA chegou perto de alcançar. 

O seu futuro, afirmo, logo será passado, e as lágrimas derrubadas neste presente secarão antes mesmo de regar as glórias daquilo que planeja colher. E, se porventura o sopro gélido ceifar o seu futuro, transformando-o num efêmero passado de tristezas alheias, tua sina poderá ser mais bem compreendida e sua tristeza, finalmente, revelada. 

Por isso reitero: viva, registre, escreva.

Atenciosamente,
Tássio"

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

As pedras vão rolar...

Faz tempo que quero falar sobre música. E já começo alertando aos críticos e musicistas de plantão que, NÃO, eu não entendo nada de música. No máximo, arranho quatro ou cinco acordes num violão, mas não consigo cantar e tocar ao mesmo tempo. Eu admito, sou completamente descoordenado (ou disléxico, vai saber...).

Ainda assim, sou um apaixonado pela música. Passo horas ouvindo bons CDs, fazendo downloads (pirataria feelings) e assistindo videoclipes no YouTube.

Quando somos mais novos, temos a tendência a sermos ecléticos. Eu já fui eclético, até uns 12 anos. Estamos em formação e somos presas fáceis da mídia e da modinha. Mas aí descobrimos algo que gostamos muito, nos aprofundamos e, quando olhamos para trás, temos até vergonha daquilo que curtíamos.

Antes de continuar, quero ressaltar que não estou aqui para ofender ou falar mal de qualquer outro gênero musical. Cada um gosta do que lhe apetece. E às vezes o gosto não é nem uma questão de escolha, é uma questão de identidade. O que eu quero é defender um gênero em especial.

Um dia eu descobri o Rock. Essa vertente musical é tão dinâmica e extensa que ainda posso me definir como eclético. Gosto de rock nacional, hard rock, heavy metal, grunge, punk rock, hardcore, rock progressivo, psicodélico, de garagem... enfim, Rock'n Roll.

A maior parte dos músicos que eu conheço tiveram no rock sua inspiração. Sim, no rock.

Ou por acaso você conhece alguém que quis ser guitarrista por causa de um solo de guitarra de Zezé de Camargo e Luciano? Ou um baterista que vibra com Luan Santana? E o baixo alucinante do Roupa Nova? E  o que dizer daqueles vocalistas sensacionais de funk, de pagode... Ora, os nomes citados são de grandes artistas em seus respectivos gêneros. Mas o foco é outro.

O foco é o daqueles que enchem estádios, em qualquer lugar do mundo. É daqueles que estão presentes em todos os países, em todos os idiomas.

Acho que o rock fala para a alma como poucos gêneros musicais. E ele não se limita ao amor, ao saudosismo. Vai além. Fala dos problemas sociais, da violência, de política, corrupção, aborda questões existenciais. Protesta, conta histórias e estórias, fala de anjos, da vida e da morte. Depressão, felicidade, poesia e religião.

E os movimentos musicais que ditaram modas? Existem os músicos que acompanham tendências, são "da modinha". E tem aqueles que ditam as regras. Subvertem a moda, a mídia à sua vontade. Movimento Punk,  movimento Grunge. O rock não conhece fronteiras, não tem limites.

Estou evitando dar exemplos. Seria injusto citar alguns nomes quando o rock fornece toda uma enciclopédia musical, em todos os instrumentos que se possam imaginar. Da flauta ao acordeon. Dos meninos de Liverpool ao vovô que comia morcegos.

É, o rock liberta, quebra paradigmas. Afinal, quem aí nunca quis ter uma banda de rock?


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Procurando "eu"


Me perdi, mais uma vez.

Parece uma simples questão de estar, quando na verdade se trata de uma questão de ser. Estou perdido, mas eu ainda sei onde estou. Paradoxo? Não. O que eu não sei é: quem eu sou?

Ainda não descobri. Mas já sei onde procurar: lá, bem longe dos holofotes, escondido no silêncio da reflexão, em meio à solidão dos meus pensamentos.

A jornada é longa, a estrada sinuosa. Mas é apenas lá que poderei me encontrar, descobrir quem eu verdadeiramente sou. E você sabe onde se encontrar?

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Em busca da criatividade perdida

Raramente começo um texto fazendo ressalvas. Neste caso, é mais do que importante. O título “Em busca da criatividade perdida” não quer dizer que perdi minha criatividade e agora quero recuperá-la. Pelo contrário, eu nunca tive criatividade, então estou procurando por alguma que alguém tenha perdido. E não pretendo devolver.

Feitas as considerações iniciais, todos sabem como é difícil começar um texto. Às vezes temos tantas ideias, tantos conceitos, mas, sabe-se lá por que, eles ficam aprisionados dentro de nós, trancados atrás de uma porta chamada “primeiro parágrafo”. Depois de aberta, as ideias costumam fluir com naturalidade.

Mas isso é pra quem tem ideias. E o que eu mais queria era ter uma ideia. Mas não uma ideia qualquer. “A ideia”. Criativa e original. Encantadora e arrebatadora, o que tá difícil. Muito difícil.

Eu já publiquei... (deixa eu ir no blog contar...) 11 textos. 12 com este. Escritos e salvos no computador pessoal, algo em torno de 130 (muitos dos quais nunca serão publicados, asseguro). E até hoje, nada. Nenhum clarão, nenhum súbito momento de inspiração divina, de elevação espiritual. Nada.

E é exatamente isso que eu espero. Um dia (eu ainda sonho que esse dia vai chegar) vou sentir uma profunda inspiração e, quase que possuído por uma genialidade cósmica, vou arder em uma febre onívora de observação e vou conceber minha obra-prima. E vou poder enfim sentir o deleite sagrado dos deuses, o regozijo supremo.

Tenho certeza de que, quando Mozart compôs uma de suas obras-primas, Don Giovanni, ele deve ter curtido muito o seu momento, concluindo: “eu sou foda!”. Einstein, depois da teoria da relatividade, deve ter acendido um belo charuto, tomado uma taça de vinho e pensado: “pobres mortais...”. O que eles tinham em comum? Eram gênios, e sabiam disso. E sabiam também que suas obras eram fantásticas. Eles riam por dentro, de tanta felicidade.

E eu? Eu já estou cansado das vozes que eu ouço. Elas não me sopram nenhuma coisa interessante, digna de registro. Conversando com um garfo, ontem, percebi que estou cada vez mais longe do que nunca de ter uma ideia genial. O que também deve ser consenso entre vocês, leitores. Mas teimoso como sou, eu ainda não desisti de encontrar, perdida por aí, a criatividade perdida de alguém.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Deuses do nada

Somos animais. Mamíferos, primatas e hominídeos. Mas não se preocupem, biologia não é o foco desta nova divagação etílica. Tá, tudo bem, eu confesso, não estou alcoolizado. Mas seria uma boa desculpa para justificar o que vai acabar surgindo nas próximas linhas. Se é que tem desculpa...

Pluricelulares. Esta é a última expressão que empresto da biologia. Somos animais compostos por cerca de 50 trilhões de células (obrigado Google) que nos dão essa aparência, essa unidade.

Eu disse... unidade?

Ora, cada pequena célula é um micro-organismo vivo que pode, inclusive, viver e se reproduzir fora do corpo humano. Nós somos um conjunto de trilhões de células vivendo em uma organizada forma de sociedade microscópica.

De onde vem então essa unidade, essa individualidade que nos permite julgar os verbos na primeira pessoa? Essa noção de individualidade não reside em nenhuma das nossas células. Não há um “eu” biológico ou celular dentro de você. Há apenas um conjunto de células. Quem sou “eu”? Não seria mais correto dizer “nós”?

Quando usamos o “eu”, não estamos dizendo, “meus pés gostam de chinelos” ou “meu cérebro não gosta de matemática”. Estamos dizendo apenas “eu”. Mas não existe esse “eu”. Existe apenas o “nós”.

Tá, eu sei, soaria estranho dizer “nós, membros da República Pluricelular Tássio Denker, queremos um Big Mac. Coca-Cola Zero, por favor.”

Questionar não é crime. Sempre me pego pensando nessas questões fundamentais acerca da existência humana (fundamentais?! existência humana?! WTF?!). O problema realmente começa quando eu quero responder essas questões.

Aconselho, portanto, que parem por aqui.

Bem, já que vocês insistem, agora é por conta e risco de vocês.

Milhares de pequenos seres vivos, que vivem em função de um “ser maior”, que não existe individualmente, senão no conjunto de todos eles... Um ser superior, que comanda e condiciona estes pequenos seres vivos... Um ente que não passa de uma “consciência” maior que seus pequenos seres...

Seríamos um... (rufar de tambores)... Deus?

Sempre achei que eu era especial (excepcional talvez?), mas um Deus? Somos deuses de nós mesmos? Deuses do... nada?

Segundos antes de publicar esse texto me veio outra idéia, providencial e que pode inclusive amenizar a minha barra: seria esta unidade o conceito de alma? (ufa!)

Tá, tomei muito do seu tempo, eu sei. Mas nunca prometi algo bom mesmo. Eu e minhas teorias furadas. Aliás, eu já comentei com vocês sobre a minha teoria acerca da origem do universo?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um dedinho de prosa

Como você se sente quando suas potencialidades não correspondem às suas expectativas?

Adoro a poesia e admiro quem tem o dom e a facilidade de brincar com os sentimentos e as palavras. Eu queria ser poeta, dominar essa arte com leveza e elegância.

Eu? Eu escrevo. Tento transformar sentimentos em palavras, sensações em verbetes, pensamentos em vocábulos. Mas, infelizmente, fui condenado a essa forma de prosa, prosaica, lugar-comum. Tenho o espírito triste, um olhar melancólico. Sinto que tenho alma de poeta. Tão somente a alma.

Minha criatividade e o meu intelecto são absolutamente incapazes de tratar as palavras com carinho. Surro-as, despejo-as, sem paixão, sem emoção. Desordenadas e caóticas. Apenas empilhadas, parágrafo após parágrafo.

Que emoção seria eu capaz de despertar, de instigar, se, quando muito, trago nos meus textos um pouco de razão?

O poeta não faz apenas poesia; dá som às palavras, cor aos sentimentos, aroma aos trocadilhos. Eu faço cinema mudo, preto-e-branco, construo jardins sem flores. É como se eu tivesse nascido para voar, mas minhas asas me foram negadas.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Felicidade a conta-gotas

Já disse uma vez Sartre, filósofo existencialista: “O homem está condenado a ser livre”.

Tá certo, eu sei, essas expressões, esses filósofos, palavras difíceis, paradigmas e paradoxos que nos deixam tontos... fica frio, não vamos viajar nessas loucuras.

Tudo começou esses dias atrás, quando alguém, no Twitter, se perguntou se a felicidade seria um estado pleno e absoluto que podemos alcançar, ou então a vida que é feita de momentos felizes e outros não, que se alternam para sempre. Depois de ler tal questionamento lá estava eu, novamente, refletindo.

Refletindo porque, de certa forma, eu não estava chegando a nenhuma conclusão inédita. Era apenas um reflexo de uma ideia já bem sedimentada.

Cortando um pouco o caminho, posso adiantar que eu jogo no segundo time. Acho que até podemos nos definir como pessoas felizes ou infelizes, mas o que nos dá essa autoridade é um conjunto de momentos que vivenciamos. É certo que, alguns dias estamos alegres, felizes; em outros, nem tanto.

Penso isto porque, de certa forma, creio que nenhum ser humano é um adjetivo. Somos humanos, e só. Vivemos um dia após o outro e, a cada um desses dias, fazemos inúmeras escolhas e projetos que nos permitem nos rotular. Fulano é medroso, beltrano é sincero, sicrano é invejoso.

O que eu quero dizer é que, ninguém é corajoso, medroso, falso ou sincero. Fazemos escolhas corajosas, medrosas, falsas ou sinceras. A cada novo desafio, nos comportamos de acordo com nossos sentimentos.

Ninguém nasce corajoso ou covarde. As pessoas nascem humanas e traçam seus próprios caminhos. Traçam seus próprios projetos de vida, baseadas em suas escolhas. Algumas dessas escolhas, sim, podem ser corajosas ou covardes.

Nós, humanos, somos apenas o projeto de nós mesmos. Mas não aquele projeto ideal que traçamos com base nas nossas potencialidades. Nós somos aquele projeto que estamos executando, dia após dia, nas pequenas escolhas que fazemos.

E eu? Eu sou quem eu decido ser... às vezes medroso, às vezes sincero, às vezes culpado. Sou imperfeito, como as escolhas que faço. Mas o importante é que eu sou meu, ou seja, senhor destas escolhas.

E o que isso tem a ver com a felicidade? Não sei. Talvez porque essas nossas pequenas escolhas reflitam sobre nosso estado de espírito, nos fazendo sofrer, nos fazendo sorrir. Talvez a infelicidade venha quando nos deparamos com as falhas do nosso projeto.

Acho que, no fundo, felicidade tem a ver com essa liberdade de escolha. Essas pequenas escolhas do dia a dia, a felicidade a conta-gotas. Liberdade essa citada na frase do primeiro parágrafo. Mas agora, se isso tudo foi um pouco chato, peço desculpas. É que isso é existencialismo.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Preguiçoso, eu?

Preguiçoso não seria bem a palavra certa para me descrever. Tá certo, eu concordo que às vezes, “às vezes”, eu passo essa impressão. Mas talvez a palavra inerte seja mais cabível para descrever meu peculiar jeito de ser. E inerte não é necessariamente preguiçoso, mas simplesmente alguém que age de acordo com as leis. A primeira lei de Newton, mais especificamente.

Não é fácil pôr essa massa toda em movimento. Estou em repouso e, portanto, como já “legislou” Newton, tendo a permanecer em repouso. Eu é que não quero ser taxado de insurgente, de rebelde ou de caudilho da física clássica. Prefiro a obediência.

Este estado de repouso, por sua vez, de aparente inércia, não se encerra, como pensam muitos, na ausência de atividades. Pelo contrário. É no repouso e no silêncio que exerço uma das atividades mais fascinantes que podemos desenvolver: a observação.

A observação é uma atividade genuinamente passiva. Olha aí uma antítese interessante... (e olhe eu aí divagando e perdendo o foco...)

Contemplativo poderia descrever o meu semblante em grande parte do tempo. E é engraçado como essa aparência de calmaria esconde uma grande inquietação causada pelo borbulho de ideias, constatações, juízos e confusões que se desenrolam o tempo todo dentro de mim.

Claro que 99% de tudo que eu penso eu descarto. Minha “lixeira” mental vive precisando “esvaziar”. Talvez sejam tantos sentimentos, tantos pensamentos que a “máquina trava”, e fico assim, com essa cara de bobo olhando pro vazio. Os pensamentos que sobram, de vez em quando, posto nesse blog.

Enfim, dei voltas, enrolei, gastei meu verbo e o seu tempo tentando te convencer que:

Preguiçoso não, observador!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O espelho d'alma

Há anos havia estado nesta mesma casa, nesta mesma rua. Nada estava diferente, até mesmo sua cor permanecia a mesma, embora renovada. Lembrei então daquela janela, no sótão, com aquela maravilhosa vista para a vila.

Da última vez que havia olhado por esta janela, vi crianças alegres brincando, com o brilho amarelo do sol em suas faces. Lembro que queria me juntar a elas. Vi árvores, belas, corpulentas, antigas e retorcidas, desafiando a gravidade, chacoalhando à brisa que embalava seus galhos e farfalhavam suas folhas.

As flores no jardim refletiam cores radiantes que se destacavam no gramado verde. Aves e borboletas dançavam no ar, enquanto as abelhas trabalhavam incessantemente. De relance, vi um jovem ajudando uma senhora, buscando-lhe alguns papéis que o vento lhe roubara. Era uma lembrança muito boa.

Ao chegar, porém, àquela mesma janela, descortinei outra paisagem. Vi, logo, uma grande algazarra composta por crianças intrépidas se maltratando. Elas corriam de um lado para o outro, com os olhos cerrados, incomodadas com o sol. Senti vontade de censurá-las, gritar e mandá-las às suas casas. As árvores, outrora majestosas, mal suportavam a si mesmas, velhas e cadentes.

As flores no quintal pareciam prostitutas; abriam-se e entregavam-se a toda espécie de parasitas e insetos. Os pássaros pardos, cujas cores foram roubadas, eram mudos, imundos e horrendos. Teimavam em rasgar a paisagem como se fossem corvos em busca de carniça. Vi o descaso no rosto de um jovem, correndo para buscar um documento que uma velha de fisionomia amargurada deixara cair.

Como pôde o mundo mudar tanto em alguns anos, em uma década? Olhei novamente para fora. Lembrei-me da visão que guardava com carinho. Só então me dei conta. A paisagem continuava a mesma. Eu é que estava diferente.

Escrito em 06/07/2005

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

À deriva

Às vezes, me pergunto: por que escrevo? Por que resolvi criar um blog e, mais importante, o que seriam meus textos neste imenso oceano chamado “Internet”? É tão imenso! Tão grande que ninguém nunca poderá cruzar seus sete mares, nem sobrevoá-lo por completo em 80 dias.

Bem, eu escrevo... eu escrevo... ah, nem sei por que eu escrevo. Acho que quando publico mais um texto, é como se eu o colocasse em uma garrafinha e o lançasse ao oceano, como fazem os náufragos. E assim, meu texto, meu blog, fica por aí, à deriva, neste imenso mar.

E quando algum navegante o encontra, e o lê, é como se tivesse içado aquela garrafinha transparente, desenrolado uma mensagem e compartilhado, por alguns instantes, os pensamentos e sentimentos deste náufrago que vos fala.

Aí, então, insistindo nessa mania de ser eu, repetitivo, repergunto: por que escrevo? Afinal, se o mar já está tão poluído, quem vai prestar atenção em mais uma garrafinha boiando?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Devia ter anotado?


Todos os dias, antes de dormir, passo por um estranho ritual. Quando me deito e fecho os olhos, abre-se, instantaneamente, uma, duas, milhares de janelas em minha mente que passa a divagar, acelerada, num ritmo frenético, ideias e ideias sem fim.

O ritmo com que fluem me faz cogitar, às vezes, que no silêncio da noite, na solidão dos meus pensamentos, ouço vozes.

Mas elas não me sussurram palavras; inspiram ideias. Tenho a impressão de que sou cercado por espíritos que, invocando minha mente, me fazem delirar. Eu, por costume, as ignoro, com a clara certeza do posterior arrependimento. 

Quase sempre são ideias mórbidas, fúnebres, depressivas e, ao mesmo tempo, tão... tão encantadoras. Reforça-me a ideia de que são obras dos espíritos, pois tais serenatas de beleza à morte somente poderiam ser frutos de quem já não vive mais.

Mas, como sempre, deixo as ideias fluírem, regozijo-me com esporádicas sensações de criatividade, originalidade e genialidade. Após alguns minutos me acalmo, meus pensamentos desaceleram, voltam-se para objetos mais mundanos e, por fim, estanco este outro ser que vive em mim. De volta à minha jaula, permito-me dormir e, como sempre, esquecer tudo que pensei.

Não sei sobre o que eu pensava ontem. Só sei que era triste e encantador. Devia ter anotado. Mas não o fiz. Eu dormi e encerrei para sempre alguma ideia que poderia ter dado um belo poema. Ou, quem sabe, inspirado uma morte.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Sobre a J.*

Não a conhecia. É assim que prefiro começar. Não quero aqui lamuriar, chorar, tampouco apresentar minhas condolências à família. Neste ponto, prefiro o silêncio. Às vezes, não falar nada tem mais peso, demonstra mais respeito e sinceridade do que a lágrima sem sal, do que as palavras vazias, decoradas e repetitivas. Seria apenas mais uma frase, semelhante àquelas que irão ouvir por um bom tempo.

Posso até acrescentar que, pelas poucas vezes que a vi, cometi um grave erro: julguei-a por generalização. Era apenas mais uma burguesa, “patricinha”, cujos sentimentos vazios e inócuos reinavam em seu contexto social, regado a muito dinheiro do pai e indiferença para com o resto do mundo. Estava errado, e se possível fosse, pedir-lhe-ia desculpas. Ela não era assim. Sobre os seus familiares, assim como muitos (não todos) que velaram seu corpo, eu não consigo, ainda, ter uma opinião diferente. Acho-os arrogantes. Ou então insisto no mesmo erro. Mas ela, ela não.

“Olhar triste” definiu alguém que igualmente não a conhecia, e pouco contato teve. Hoje, muitos julgam seu ato, sua vida, sofrem, rezam ou, quem sabe, respiram aliviados. Infelizmente, a grande maioria o fez com indiferença. Apenas encenam no fúnebre palco que a morte descortina.

É tão simples. Poucos são capazes, seja qual for a situação, o motivo, de compreender tal ato. Infelizmente, rotulam de covarde essa escolha. Eu, particularmente, discordo. Não há coragem maior na vida do que abrir mão dela. Mas isso pouco importa.

Não há como, racionalmente, compreender o porquê. Ora, isto não foi decidido racionalmente. Temos por hábito respirar fundo, refletir e calmamente julgar as pessoas e seus atos quando, no entanto, estas praticaram um ato com pressão, tristeza, raiva, angústia e desespero insuportáveis. Como entender agora, confortavelmente, um ato praticado sob uma carga emotiva tão forte?

Não sei se conheço pessoas que poderiam compreender o porquê. Quando se está triste, depressivo, não existem muitas opções. É fácil condenar quando se está em um lugar plano, calmo, e pode-se ver o horizonte. Quando se está no poço, onde os limites de seu alcance podem ser tocados com os braços, vivemos outra realidade. Vivemos o desespero.

Somos livres. Invariavelmente livres. Independentemente do (des)credo de cada um. Eu a chamo de liberdade natural, direito in natu de escolha. Os cristãos preferem rotular de livre arbítrio. Não importa a palavra. Importa a essência. Temos sempre o direito a uma escolha.

Por que, então, culpá-la por tal escolha? Esqueçam os motivos, esqueçam a tristeza. Era a vida dela, e ela assim decidiu. Ninguém escolhe racionalmente o que quer para si o tempo todo, e, além do mais, sua escolha recaiu sobre si mesma. Alguns poderiam dizer que a amavam, que isso prejudicou todos aqueles que dela gostavam, que não pensou nos outros. Mas de quem era a vida? Quem estava sozinha, sofrendo? Quem não era compreendida, quem não era feliz?

Também sou, no domínio das minhas razões, completamente contrário ao suicídio, que fique claro. E pretendo manter sempre esse domínio sobre minhas emoções. Mas fora de si, quem é capaz de cumprir à risca seu código de ética, de não infringir suas convicções morais?

É egoísmo querer ter uma pessoa por perto, quando ela quer estar longe. Nós, seres humanos, não somos brinquedos, marionetes, objetos de ninguém. Não somos res. Somos livres e pertencemos a nós mesmos. Eu? Eu sou meu!

Talvez tenha sido um momento de angústia terrível, tristeza aguda, que cega, limita o raciocínio. Ou então tenha sido, há algum tempo, premeditado. O que importa? Seja qual for a situação, não compreenderemos a sua razão a não ser que estejamos em análogo estado emotivo, sobre a mesma carga psicológica, hormonal.

Eu sou ateu, mas não gosto desta palavra. Ela tem uma sombra negra, uma carga de preconceito muito grande. Tenho uma tristeza comum àqueles que compartilham comigo esta visão: a morte é o fim de tudo. Não é fácil viver toda uma vida voltada para um fim material, carnal, e ao mesmo tempo espiritual. Ver na morte o fim de tudo é assombroso. No entanto, talvez seja esta a única situação que me vejo com a consciência mais limpa, plena, leve.

Não vejo, como aqueles que têm suas crenças, o suicídio como algo diferente. Não temo por ela a danação eterna, retrocesso cármico, tampouco um espírito perturbado condenado a sofrer neste plano.

Vejo apenas a liberdade, alívio. É o repouso eterno, é o desligamento de um corpo, o instrumento de consciência sendo desligado, nada mais. Não vejo diferença quando se trata de morte, e tampouco me sinto feliz com minha convicção. No entanto, não carrego todo mal que vem embutido na morte pelas próprias mãos.

Palavras assustadoras, quase proibidas. "Ateu"... "Suicídio"...

Algumas coisas marcam a gente. Não a conhecia, mas posso afirmar que fui solidário com as pessoas que a conheciam e dividiam comigo o mesmo ambiente de trabalho. Mas ao mesmo tempo, coloquei-me em um raro estado de observação, e vislumbrei este contexto que, por fim, mexeu comigo. É uma atitude muito drástica, forte, carregada de simbolismo. E também de futilidade.

Eu me pergunto: quando foi que eu vi alguma pessoa completamente miserável cometer suicídio? Não, não me lembro.

Temos, todos nós, dois tipos de necessidades: as primárias e as secundárias. De fato existimos apenas com as primárias. Comer, dormir, beber, respirar, reproduzir. Nada mais. Existimos, mas não vivemos.

Nós precisamos é de todo o resto. Das necessidades abstratas, criadas pelo meio cultural em que vivemos. Essas que não existem no plano real, não importam a nossa sobrevivência. São objetos ideais da nossa conveniência. Todas as necessidades secundárias que temos e que foram criadas por nós. E, estranhamente, vivemos (nós, sociais) em função destas necessidades secundárias. Prefeito, juiz, gerente. Orkut, MSN. Miss-alguma-coisa, doutor. Tudo ficção, criação cultural da sociedade. O que é o dinheiro senão um pedaço de papel no qual depositamos um valor abstrato?

Hoje, para aquele rapaz que vai se suicidar, comer e beber é esporte. Ele não precisa se preocupar com a próxima refeição. Nos preocupamos com a bolsa de valores, com o dólar, com o preço da soja, a taxa de juros. Com quem a atriz se casou, por quanto a seleção venceu.

Ninguém se suicida por frustração primária. “Criamos nossas próprias expectativas para nelas amargurarmos nossa derrota”. Ninguém comete suicídio porque quis comer, por toda a vida, uma lagosta, e com 48 anos, ainda não conseguiu.

Este mundo abstrato, essa sociedade abstrata, essas comunidades abstratas são tão poderosas que limitam a necessidade de nossa existência em suas esferas. Somos prisioneiros delas, pois fora somos dispensáveis, descartáveis. O que é o bullying senão uma retaliação aos jovens que não se submetem a essas regras abstratas?

Hoje, tenho plena convicção de que estou imune a tal atitude. Ledo engano. Mas prefiro pensar assim. Nossa existência de fato escapa a estes costumes sociais, morais e de direito. Nossa felicidade infelizmente não. Se nossa luta diária fosse por um pedaço de pão e um pouco de vinho, seríamos, ao final de cada dia, felizes. Mas são exatamente países como a Suíça e o Japão que amargam índices altíssimos de suicídio.

Não culpo. Não somos imunes às necessidades sociais. Meu histórico aponta a compreensão de momentos tristes. Vivo, quase todo o tempo, imerso em minhas convicções morais e filosóficas que, invariavelmente, são igualmente abstratas, e igualmente frustrantes. Amargo derrotas quase todo o tempo. Não valorizo minhas vitórias tanto quanto algumas pessoas alheias valorizariam.

Tenho comigo apenas uma certeza: que na morte encontramos a paz. A mesma consciência que temos de nós mesmos é tão abstrata quanto as leis sociais a que nos sujeitamos. Uma consciência que se apaga encontra, no vazio da não-existência, a paz eterna.

*J. era uma garota, de vinte e poucos anos, que cometeu suicídio em 2005. Este texto foi escrito cerca de três dias após sua morte. Algumas das convicções pessoais deste autor já sofreram alterações. Outras, ainda são as mesmas.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Pretérito presente

Surpreendo-me, às vezes, relendo as palavras que escrevi no passado, recente ou remoto. Não se trata, no entanto, de concordar ou discordar, se arrepender ou reforçar determinadas ideias. Nada mais do que observação passiva, digestão, ruminação, amadurecimento ou simples análise do contexto no qual tal ideia fora forjada.

Surpreendi-me, como ressaltei no parágrafo anterior. E agora? Parágrafo novo, vida nova. Tempo é sempre uma constante nas minhas divagações absurdas. Fascina-me o modo como ele interfere em nossas vidas, mesmo que não possamos compreendê-lo em sua essência, dominar sua natureza ou manipulá-lo a nosso bel prazer.

O tempo, nosso maior aliado, nosso maior inimigo. Alguém que nunca poderemos derrotar.

O passado é repleto de história, de erros e acertos. De mistérios, curiosidades, monstruosidades, aberrações, fatos heroicos e vergonha. O futuro... ah, o futuro! Uma incógnita, um mistério cheio de esperanças, é claro. Esteja ele escrito pelo destino ou em construção pelos atos presentes e passados que interligam todos os entes deste universo.

E o presente? Nunca pensei ter dúvidas sobre o presente. O presente vive-se.

Disse no início deste texto que me surpreendia. Sim, estamos a quatro parágrafos de tempo daquele instante. “Disse”. Pretérito perfeito. Será que essa nova medida de tempo, parágrafos, permite-nos afirmar que a primeira linha desta cártula pertence ao passado?

Diga, então, o que pertence ao presente? Cada parágrafo, frase ou palavra dita, antes mesmo de concluída, pertence ao passado. Cada sílaba concluída, antes mesmo de proferir uma nova palavra, já pertence ao pretérito. Que é o presente, senão um eterno passado recente? Que lapso de tempo pertence ao presente? Uma hora, um minuto, um segundo? Agora? Pronto, passado.

Ora... diria, mas não, está dito. Fora dito. Não me pertence mais. Cada frase deste texto, cada parágrafo desta divagação. Posso me arrepender, posso reformulá-la, posso corrigi-la. Somente enquanto dure o processo de criação. Mas aqui e agora, impresso e em tuas mãos, ou visível em reluzentes telas de computador... representam apenas passado.

Um passado em que gastei um tempo que um dia fora presente, cujo lapso escorre por entre meus dedos como a areia escapa à ampulheta. Um passado onde cada palavra lida representa o que se foi, e as que virão, no futuro, se farão presentes e pretéritas sem que percebas disto. Viste?

O presente é agora. Não esta primeira oração deste parágrafo conclusivo. Ela já pertence ao passado. Este texto é pretérito. Sua consciência, agora, é o presente. Sua lembrança o passado e sua dúvida, o futuro.

Escrito em 11 de janeiro de 2007.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Palavras

Tenho muitas PALAVRAS para compartilhar, mas não sei por onde começar. Afinal, são apenas algumas palavras. Apenas?

Palavras não são apenas “palavras”. As palavras são um pequeno sopro sonoro da nossa alma, que expomos ao mundo, revelando a intimidade da nossa consciência, o segredo dos nossos pensamentos.

As palavras são como flechas, que armamos e disparamos contra alvos (in)determináveis. E como as setas, podem ferir, podem lacerar, podem tornar irreversíveis alguns dos mais humanos sentimentos.

Mas as palavras também podem curar. Podem remediar. Podem fazer-nos heróis, ou covardes. Adjetivos, e adjetivos são palavras, palavras que escolhemos ser. Locuções verbais, sujeitos e predicados. Somos objetos da palavra, ora diretos, ora indiretos.

Palavras empilhadas fazem prosa, palavras selecionadas poesia. Meros Verbetes? Vocábulos a esmo? Não, não as palavras.

As palavras possuem classe, possuem estirpe. Outras são a escória. O que diferencia a expressão “prostituta” da “puta”, essa meretriz do dicionário culto?

Palavras são marginalizadas, literalmente e com direito a pleonasmo. Vejam o preto, primo pobre, vil e desprezível do negro. As palavras carregam quase que com vida própria, suas próprias significações. Nossas significações, nossos sentidos. Quem disse ao negro que preto era crime?

E o preciosismo, sem valor – que se diga – dos excessos de alguns literatos, advogados e jornalistas? Maltratam-nas, expondo-as indelicadamente, como servas à sua vontade, castigando-as para satisfazer o ego déspota de seus locatários. Tratam-nas como se não precisasse de carinho, como se sua beleza individual ofuscasse a falta de criatividade crônica daqueles que se julgam tão... poetas.

Buscam-nas, às vezes, em outras culturas, em outros povos, em outras línguas, e as expõem, nuas e cruas, em meio ao vernáculo, deixando-as perdidas, solitárias em meio às muitas outras palavras.

Palavras cantam a beleza do mundo, declaram guerras. Palavras punem crianças, adornam lápides, enaltecem as mulheres. Palavras escrevem a história, palavras entram para a história. Palavras são a história, pois antes da palavra, sequer havia história. Quantas palavras repetidas... Afinal, que palavras são inéditas?

Que palavras dizer, em sã consciência, que o subconsciente, sujeito oculto, às vezes indeterminado, é louco, doido varrido?

Palavras, mais que palavras. Transmitem nossa personalidade, revelam um pouco do nosso caráter. Alguns defendem a palavra até a morte. Outros, gênios da verborreia, não têm sequer palavra.

É, palavras não são apenas palavras.