sexta-feira, 12 de junho de 2015

Bem-vindos à imortalidade!

"Que seja eterno enquanto dure", já disse o poeta Vinícius de Moraes, com toda a beleza, lirismo e também com muita razão. Sim, a mesma razão científica que usamos para teorizar a efemeridade do universo e sua estonteante beleza.

O "eterno", assim, é apenas um conceito ideal, intangível, que podemos traduzir, grosseiramente, como muito, muito tempo... milênios, quem sabe. E é esta "eternidade" que muitas pessoas aqui almejam. 

Não a eternidade etérea, celestial (ou infernal, no meu caso, caso exista!), mas a imortalidade do seu nome, nos seus feitos. Ramsés, Platão, Júlio César, Napoleão... histórias (muitas delas estórias) de pessoas que, por seus feitos, estão "imortalizadas" no rol das grandes celebridades. Pessoas que influenciam e inspiram outras, séculos, milênios depois de "mortas". 

Há algum tempo atrás, dei início a uma pesquisa genealógica, em busca dos meus ancestrais, minha origem. A dificuldade foi imensa e, com a ajuda de uma prima (alô Paulinha) hoje tenho uma base, ainda sutil, de quem foram meus antepassados, como e onde viviam. 

Mas... quem eram eles? Além deste sobrenome - um elo de uma corrente que carregamos pelos séculos - que nos une, o que mais temos em comum? Será que simpatizaríamos com seus ideais, suas lutas? Que medos, que angústias, que felicidades estes nossos ancestrais vivenciaram? Que mensagem teriam deixado para seus filhos, netos, tataranetos? 

A não ser aqueles cuja estirpe possa ser diretamente ligada aos seus ancestrais famosos (como os Orléans e Bragança, em um exemplo bem luso-brasileiro), nós, assim como nossos ancestrais menos ilustres, estávamos fadados ao "esquecimento", ao verdadeiro descanso e silêncio eternos. 

Em alguns casos, poderemos saber alguns dos nomes, até cerca de 500 anos atrás, mas nada mais que isto. Notem que, no parágrafo passado, disse (ou melhor, escrevi) "estávamos fadados ao esquecimento". Nossa geração está sendo presenteada, como nunca antes na história desta civilização (desculpem, foi mais forte que eu) com a possibilidade de construir, por si mesma, sua própria história e imortalizá-la, para todo o sempre (aquele sempre que sempre acaba).

E não precisamos de muito. Apenas que a internet continue existindo e resistindo ao tempo, acumulando histórias, acumulando conteúdo. Este blog, seu perfil no Face, seu Instagram, suas postagens no finado Orkut... tudo isto, online, à disposição, daqui mil anos. Seus tatatatata...tataranetos vendo suas fotos bêbados na balada, ou aquela sua postagem incrivelmente preconceituosa [que se justifica pela nossa moral, que diz que hoje é normal (rimou!)].

Eu queria ter acesso à "internet" dos nossos avós. Queria saber se meu tataravô era um escravo ou escravagista, ou se ele repudiava aquele costume tão... comum à sua época. Se meu ancestral achava a liberdade, igualdade e fraternidade coisas passageiras, e vibrou com as cabeças rolando ou, então, viu o mundo girar sobre o eixo dos seus ouvidos. E, em qualquer destas situações, o que seu filho (meu ancestral também)  pensou disto?

Deixamos, aos poucos, pistas sobre quem somos, sobre o que pensamos, quem amamos. Nossos pequenos vícios, nossas grandes virtudes (e vice-versa). Vá ao Google, coloque seu nome, veja que história está sendo construída (meus queridos descendentes que leem este profético texto, séculos depois de minha morte, a Google era uma empresa que organizava as informações que existiam na internet). Seus fotologs, blogs, vlogs, artigos, redes sociais, sites, etc. Estamos deixando um patrimônio cultural, um legado muito forte, algo de que fomos privados por toda nossa ascendência.

Sinta o peso da responsabilidade de tudo que você posta, sobre seus ombros. Não é você que (sempre) quis ser imortal? Pois bem, enquanto durar esta eternidade, suporte as consequências!

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Homenagem - Rubens Luiz Sartori

Texto baseado no artigo científico, escrito em prosa pelo advogado, jurista, promotor de justiça, radialista, professor, escritor e poeta Dr. Rubens Luiz Sartori, chamado “Abordagem sobre a criminalidade e redução da maioridade penal”, cuja tese foi inscrita no Seminário Estadual “Ministério Público: a construção de uma identidade”, ocorrido em setembro de 2013. 

Logo após a inscrição, Dr. Rubens Sartori veio a falecer, vítima de um AVC, e sua tese foi defendida, in memoriam, pelo promotor de justiça Marcos José Porto Soares. Na ocasião, optou-se por "converter" a tese, escrita em prosa, para a forma de poema, em estrofes organizadas em quadras, o estilo mais utilizado pelo jurista em manifestações judiciais, razão pela qual ganhou notoriedade em jornais e revistas nacionais.

A "conversão" ficou por minha conta (Tássio), e confesso que a dificuldade foi imensa, pois não é e nem nunca foi um dom, hobby ou mesmo uma prática minha a confecção de poemas e versos. O maior cuidado foi em manter a essência da ideia original, inscrita no seminário. No final da postagem, deixo o link da gravação amadora da declamação bem como o link para o conteúdo da tese original.


Há alguns dias, em outra semana
Lá em Campo Mourão
A sabedoria veio à paisana
De chapéu e chimarrão

Na visita nos questiona
O que acha do raciocínio?
Ouvimos atentos como funciona
E em poema, patrocínio

Abordagem sobre a criminalidade
e redução da maioridade penal;
Porque nos crimes a tenra idade
É sempre um debate atual.

Responder antes dos dezoito
Por um crime praticado
Pra uns, argumento afoito
Para outros, justificado

Sem dinheiro e educação
Sempre à margem da sociedade
Injusta seria a tipificação
Com os infratores uma impiedade

De boa-fé discutem os defensores
Sem nunca precluir
Por isso apresento aos senhores
O argumento a seguir

A questão etária é importante
Mas o mundo está diferente
Para a maturidade do meliante
A idade é mais um elo na corrente

Cultura e conhecimento
Também delimitam o cognoscente
Importa muito o discernimento
Seja ele adulto ou adolescente

Hoje tudo é mais evoluído
Ciência e Internet, a rede mundial
Há muito jovem instruído
Não há fronteiras na rede social

O crime, uma ação pessoal
Também reflete essa evolução
Se é uma atividade mental
Estudar o cérebro é a solução

Ao longo da humanidade
Nunca se discutiu amiúde
Devemos sair da ingenuidade
E pesquisar com amplitude

Não confunda com Lombroso
Autor de “O homem delinquente”
Um livro deveras tenebroso
Já superado e incongruente

Desejava mostrar a essência
Mas não ia além do preconceito
Pois julgava que a aparência
Revelava a alma do sujeito

Depois desta ideia superada
O sistema criminal punitivo
Iniciou uma busca desesperada
De recuperar e ser educativo

O que vemos hodiernamente
Predomina no sistema penal
Algo imposto gradativamente
Que não foca o aspecto mental

O crime é uma expressão da mente
Seja por “volutas”, ou pela doença
Toda a ação do delinquente
É do cérebro uma sentença

Se o homem age normal
É a mente que impulsiona
Para o bem ou para o mal
É o cérebro que leciona

Mas se o cérebro não é bem feito
Inocente é o rapaz
A medicina dá o conceito
E o chamamos de incapaz

Devemos olhar com firmeza
Se o cérebro é saudável
Para auferirmos com certeza
Se o indivíduo é imputável

Se penso, logo existo
Quem não domina seu pensar
Deve ser benquisto
Mas incapaz de professar

Mas há homens no enredo
Que pensam de maneira normal
Mas que escondem um segredo
Na estrutura cerebral

Um novo tipo de raciocínio
Vem a ciência prosperar
Pois nem todo assassínio
Nós podemos recuperar

Partir do pressuposto:
“Não doentes mentais”
Vai nos trazer o desgosto
Pois não são todos iguais

Pois muitos são os pensares
De cérebros com higidez
Mas ideias não salutares
Devem ser vistas com rigidez

Nem todos os seres são iguais
Mesmo que ainda conscientes
Menores que maltratam animais
Podem ter problemas inerentes

Doutora Ana Beatriz Barbosa
Psiquiatra expoente
Escreveu uma obra valorosa
Cujo tema é pertinente

Mentes Perigosas:
O Psicopata mora ao lado
Pessoas geniosas
Que portam um mal velado

A psiquiatria nos leciona
O que vem a ser psicopatia
Como seu cérebro funciona
A falsa empatia

Não possui remorso e arrependimento
Parece ter prazer em fazer o mal
Sua mente tem pleno discernimento
Como devolvê-lo ao meio social?

Estes seres não têm idade
Nem apego emocional
Possuem uma maldade
Que não se cura em hospital

Infelizmente é insensata
A fé e a esperança
Na cura de um psicopata
Que é mal desde criança

Caráter, de origem helênica
Significa marca gravada
A maldade psicogênica
No cérebro está sulcada

Não decorre do convívio social
A psicopatia do delinquente
Os médicos dizem que é cerebral
Devemos ter isso bem ciente

Deve, portanto, o direito
Buscar mais que a idade
Analisar friamente o sujeito
Averiguar sua incolumidade

Não se trata somente de entender
E do entendimento se determinar
É a maldade inata compreender
Para um psicopata se sentenciar

Ele sabe o bem e o mal
O errado e o certo
Entende o direito penal
Pois é muito esperto

Só com o real diagnóstico
Poderemos ter a dimensão
Aplicarmos o prognóstico
Aos que agem com perversão

É para este o horizonte
Que o direito deve se voltar
Tentar cruzar a ponte
E com a medicina fomentar

Somar sempre à idade
A capacidade e sapiência
E além da aparente sanidade
O cérebro em sua essência

Como mais um lado do prisma
A idade deve ser vista
Para não incorrer em sofisma
Nem ser falso moralista

É filosofia e religiosidade
Prejudiciais ao aspecto penal
Porque mascaram a realidade
Com a vã esperança fraternal

Este é apenas um testemunho
Uma crítica ao sistema
Uma ideia escrita à punho
Convertida em poema

Portanto o texto original
Escrito em prosa a priori
É deste jurista genial
Doutor Rubens Sartori
Um gigante promotor
Ad causam et honori



A Assessoria de Imprensa do Ministério Público emitiu nota da defesa/homenagem.

Quem preferir assistir à declamação feita no Seminário, gravada por uma câmera amadora, basta acessar este link. A declamação começa por volta dos 11 minutos.

Por fim, quem quiser ler a tese original, em prosa, pode fazê-lo neste link.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Política: razão ou fé?

Um dos mais conhecidos ditos populares, ao menos no Brasil, é que “política, religião e futebol não se discutem”. Não sei se é o “proibicionismo” que excita, mas o fato é que sempre achei muito interessante discutir sobre os três temas.

Claro que quando falamos de religião, devemos ter a plena consciência de que estamos mergulhando num tema aberto, sem limites e cujo objeto central circunda os elementos da fé. Em outras palavras, é prudente ter sempre em mente que religião se ocupa do crer (fé), e não propriamente do saber (razão).

Por isso é que podemos afirmar que a discussão religiosa é dogmática e dispensa a cientificidade. Não se prova a existência ou a não existência de Deus. Isto é algo que não pode ser mensurável, não pode ser falseável.

Partindo desta premissa, o cristão, hindu, islão, ateu, etc., sejam eles agnósticos ou dogmáticos, poderiam discutir em paz — algo ainda bastante distante do que vemos nos debates pelo mundo afora — suas teorias, suas crenças e suas expectativas de fé.

Futebol, assim como a religião, envolve paixão e, pelos mesmos motivos — quase sempre dogmáticos — as discussões descambam para debates hilários ou completamente desprovidos de razão. Além disto, acrescenta-se a subjetividade a respeito das interpretações das arbitragens nos jogos e temos o cenário perfeito para o caos.

Claro que existem os críticos e os fãs do esporte que, mesmo possuindo um clube pelo qual torçam, sabem se posicionar de forma bastante crítica e racional. Mas estes são quase sempre exceções. Independentemente disto, quase sempre nas rodas de amigos e nas mesas de bares, as discussões são mais apaixonadas do que racionais.

Já a política, por outro lado, sempre me atraiu mais nas discussões porque pertence muito mais ao campo da filosofia e da ciência do que os outros dois temas. Pois se faz a política embasado em determinados posicionamentos ideológicos e essa pluralidade de opções é que torna o cenário ainda mais rico e fértil para boas e sadias conversas.

Infelizmente, assim como no futebol e na religião, a grande maioria dos cidadãos encara a política não como uma questão de razão, mas sim como uma questão de fé. A incapacidade de se discutir racionalmente a respeito de política me faz ver que a democracia só é boa para uma pequena parcela dos que se veem representados no poder.

Neste ponto, é notável como as pessoas são ignorantes — no sentido de ignorar ou desconhecer — tanto em relação aos preceitos a respeito de correntes político-ideológicas quanto no que tange a (im)probidade administrativa e os atos de corrupção praticados pelos agentes.

Vemos todos os dias nas redes sociais e nos editoriais de jornais e revistas, embates entre os defensores da direita e da esquerda que se esquecem que defendem um posicionamento cuja identificação é pessoal e não torna a outra corrente inepta, errada ou ainda malvada e opressora. Ser de direita não é ser fascista e ser de esquerda não é ser comunista, mas tentar elucidar este ponto de vista é como jogar palavras ao vento.

Posicionamentos político-ideológicos são salutares e fazem parte do processo dialético que engrandece a democracia e o Estado de Direito. Privatizar ou estatizar, a título de exemplificação, sempre serão ações que irão possuir prós e contras.

Mas enquanto ainda somos capazes de encontrar pontos e argumentos bastante interessantes, calcados em fundamentos teóricos ou em dados empíricos nestas discussões, embora com frequência cada vez menor, por outro lado, quando falamos das figuras públicas que representam (em tese) essas ideologias, aí vemos que a razão é abandonada de uma vez por todas e passa a valer a fé.

A fé cega.

É fácil ver como as pessoas declaram apoio ou repúdio tão somente com base na fé.

Para ilustrar melhor, eu poderia partir do cenário geral e chegar aos casos particulares (dedutivo), mas vou optar pela via oblíqua (indutiva).

Trabalho há alguns anos em inquéritos e investigações que visam apurar atos de improbidade administrativa. Neste período, presenciei cerca de 200 procedimentos administrativos, muitos deles, cerca de 31%, convertidos em ações civis públicas, uma média maior do que os índices nacionais e estaduais (no Brasil cerca de 22% dos inquéritos são convertidos em ações, enquanto que na Região Sul, este índice cai para 19%). [2]

Em quase todos os casos — de ajuizamento de ação ou de arquivamento por outros motivos (denúncia improcedente ou irregularidade sanada sem dano ao erário), o juízo de valor técnico-jurídico do promotor de justiça é precedido e sucedido pelo juízo de valor midiático, pessoal e passional. E estes são reverberados à exaustão.

A cada nova ação ou arquivamento, chovem manifestações de apoio ou repúdio de pessoas que sequer têm o menor conhecimento do objeto apurado, das provas colhidas e das manifestações exaradas!

Isto mesmo: grande parte dos indivíduos se digladiam nas redes sociais embasados tão somente no “achismo” e na empatia (ou antipatia) que têm com seus candidatos. Não buscam nem procuram fazer consultas (quase a totalidade dos procedimentos e das ações são públicas), mas mesmo assim ressonam pontos de vista elaborados sob medida, como a nada original desculpa da perseguição ou favorecimento político, por exemplo, para justificar uma ação ou um arquivamento.

Ao adotarem um determinado candidato ou uma determinada sigla partidária, muitos cidadão me passam a impressão de que são “batizados” e passam a estar intimamente ligados com estas figuras, tal qual um torcedor com o seu clube, ou um crente com sua religião, blindando-se às críticas negativas e vociferando às cegas contra os “adversários” políticos.

Por mais que me apeteça discutir política, futebol e religião, a intolerância e/ou a ignorância têm me impulsionado a me manter em silêncio cada vez mais, para manter o tênue clima de paz. Mas, “se paz sem voz, não é paz, é medo”, que flua este desabafo.

_____________________________________

[1] Texto originalmente publicado no Medium.

[2] Dados extraídos da “ANÁLISE DOS DADOS FUNCIONAIS ENVIADOS
PELAS UNIDADES DO MINISTÉRIO PÚBLICO EM 2008.” do Conselho Nacional do Ministério Público — www.cnmp.mp.br


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Majorar a menoridade: Uma antítese social

É muito comum, ao olharmos para a situação da nossa segurança pública, como brasileiros, compará-la às de países de primeiro mundo. E, quando pensamos em alguma solução, a primeira coisa que pensamos é em “mudar a lei”. Embora existam situações em que a legislação é falha e que realmente precisa ser alterada, essa visão costuma ser, na minha opinião, quase sempre equivocada. Mas vamos explicar por partes.

Primeiramente, antes de qualquer opinião, quero deixar bem claro que acredito que nós, humanos, somos todos iguais (na medida de nossas desigualdades, claro). Não é a cor da pele, o formato do nariz ou a religião que se segue (ou que não se segue) que vai determinar seu caráter ou a sua capacidade. Este ponto de partida é crucial para compreender todo o restante. Mas logo mais se entenderá bem o porquê desta nota preliminar.

A respeito da segurança pública – e aí entra também a questão da maioridade – é necessário dizer que contamos (isso tanto no Brasil quanto no resto do mundo) com basicamente duas forças policiais – a repressiva e a investigativa. Uma visa impedir futuros crimes ou então combatê-los, durante a sua realização. A outra é a investigativa, que tem por objetivo desvendar os autores e os motivos do crime, e levar os culpados à justiça para que sejam devidamente processados. Claro que, em algum ponto, a investigativa também acaba prevenindo crimes, porque tira de circulação criminosos que podem vir a ser reincidentes. 

No entanto, nem aqui, nem no Japão, USA, Alemanha ou Dinamarca, a Polícia conseguirá impedir todos os crimes de acontecer. Principalmente quando alguém quiser realmente cometê-los. E isto é uma anotação simples e inquestionável, pois não há, em lugar nenhum do planeta, civilização que tenha um policial por habitante, vigiando-o 24 horas por dia. 

Se eu quiser matar alguém, eu consigo. Ficar impune ou não ser descoberto é outro assunto. Mas o fato é que estamos, sim, e sempre estaremos à mercê da vontade alheia. Se alguém quiser me assaltar, essa pessoa vai conseguir, cedo ou tarde, porque eu tenho consciência de que não há meios do Estado se fazer presente em todos os locais o tempo todo. 

No entanto, ainda que conscientes de que elas têm essa faculdade de cometer tais crimes, as pessoas, via de regra, se comportam da forma adequada, seja por medo de uma futura punição, seja por valores morais ou, ainda, por seu estado social. Usei a expressão via de regra porque, no pior dos piores cenários, não mais de 10% de uma população será criminosa.

Resumindo: nenhum país impedirá todos os crimes de acontecerem – desde os atentados terroristas, maridos que matam esposas, assaltos à mão armada até os muros pichados. O que um Estado pode fazer é ser eficiente em prevenir ou, depois de acontecido, descobrir e elucidar esses crimes e, ainda, lidar com o criminoso de forma adequada.

E por que as pessoas cometem crimes? Essa discussão é muito profunda, abstrata, e demandaria um compêndio de livros sobre psicologia, sociologia, antropologia, criminalística, filosofia e outras ciências para chegarmos a um conceito ou um rol de motivações. Mas há, nitidamente, uma diferença muito grande nos índices de criminalidade do Brasil e de países de primeiro mundo. E não é coincidência, mas há, também, uma grande diferença nos índices sociais e de IDH entre esses mesmos países. 

É notável a correlação entre a qualidade de vida de uma sociedade e os seus índices de criminalidade. Países em que o Estado ou a sociedade são sadios e podem oferecer melhor qualidade de vida aos seus habitantes sempre terão melhores índices de segurança pública. 

Isto porque, em tese, as pessoas são mais bem-educadas, mais conscientes e possuem menos necessidades não supridas. É por tal razão que existem poucos assaltos, roubos e homicídios nestes países. É por isso que estes países só enfrentam crises de segurança quando algum alucinado entra em uma escola e mata professores e alunos – crime que não tem sua origem na condição social ou cultural, mas quase sempre associado a problemas psicológicos ou psiquiátricos. Mas veja, nem nestes países é possível prever e impedir tal crime. 

Novamente resumindo, é notável que as condições sociológicas, culturais e educacionais refletem diretamente na potencialidade de um indivíduo vir a ser criminoso. Neste ponto é que encontramos a diferença entre um país como o Brasil e a Dinamarca, por exemplo. Qual a possibilidade de um brasileiro pobre vir a ser criminoso? Baixa, claro, mas ainda assim muito maior do que a de um dinamarquês pobre.

Lembra quando eu comentei que as pessoas são “todas iguais”? Eu lhe pergunto, aplicando um exemplo simples: uma criança nascida no Brasil e que é levada ainda bebê para a Dinamarca e lá criada como um dinamarquês, vai refletir, em sua vida adulta, que percentagem de probabilidade de vir a ser um criminoso? 

Claro que não somos inferiores, enquanto humanos, aos dinamarqueses. Um brasileiro criado lá refletirá os padrões sociais de lá. Porque somos matéria do mesmo barro. Mas enquanto sociedade ainda estamos deixando muito a desejar.

E o que isto tem a ver com a maioridade penal?

A diminuição da maioridade penal vem sendo vendida como uma forma de atenuar ou diminuir a criminalidade na sociedade brasileira. Mas se olharmos bem para a origem dos nossos problemas, veremos que o “medo” e as “penitências” que o Estado dá aos já maiores não ajudam, em nada, na política de prevenção do crime. Se um maior, mais consciente, comete o crime da mesma forma, por que não um adolescente mais inconsequente vai deixar de cometer?

Pois não é o medo, não é a cadeia que vai impedir um crime. Nada impede um crime. Mas se tivermos uma política que melhore a qualidade de vida, diminua as necessidades não satisfeitas, é que começaremos a ter melhoras nos índices de criminalidade.

Aliás, em muitos dos países mais desenvolvidos as penas são mais brandas que no Brasil, e a criminalidade é muito baixa, o que mostra que a relação punição-prevenção não funciona como o prometido.

O que vai solucionar os problemas é oferecer aos nossos jovens educação, saúde, e oportunidade de crescer culturalmente, financeiramente, espiritualmente, psicologicamente e filosoficamente, para que o crime não seja visto como uma alternativa viável para se conseguir satisfazer as suas necessidades. Isto porque, se alguém quiser cometer um crime, sabemos que ele conseguirá. Precisamos é combater os motivos pelos quais as pessoas cometem crimes. Nossos jovens são tão capazes quanto os jovens dinamarqueses. Só falta aos nossos aquilo que lá eles têm. 

Ao diminuir a maioridade penal, o Estado estará deixando de lado o combate à causa da criminalidade, para fornecer aos jovens que cometem infrações ainda mais motivos e razões para continuar no mundo do crime. 

Por fim, apesar de todo o exposto, eu não concordo com a maioridade penal aos 18 anos. Mas também não concordo com ela aos 16, 12, etc... Na verdade, eu sou contra a existência de um critério de idade para a imposição da imputabilidade. Assim como ocorre com a presunção de violência no estupro – uma relação sexual, mesmo que consentida, com um menor de 13 anos é considerada estupro – a idade nem sempre dirá o quão consciente é uma pessoa, o quanto ela tem capacidade de discernir, compreender. Isto é um conjunto de fatores educacionais, sociais, dentre outros. 

A meu ver, sempre que acontece um crime, durante o trâmite do processo penal, além da autoria e da materialidade, em uma determinada faixa de idade, como dos 14 aos 20, por exemplo, a capacidade deveria ser igualmente investigada, pois há, sim, adolescentes com 16 anos que têm plena consciência da ilegalidade da sua conduta, enquanto há outros, com 18 que não têm a mesma noção. Aplicar-se-ia a imputabilidade, semi-imputabilidade e a inimputabilidade caso a caso. Mas isto é a questão da responsabilização apenas. A questão da execução da pena deve continuar mantendo adolescentes separados do sistema carcerário dos adultos. Mas essa discussão fica pra outra hora.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Laços & Nós

"Aqueles que passam 
por nós não vão sós. 
Deixam um pouco de si, 
levam um pouco de nós."
Antoine de Saint-Exupéry


Hoje é um dia muito triste, pois mais um pedacinho de mim foi embora. Algo aqui dentro me impele a tentar transformar essa tristeza em força, a força em palavras e as palavras em um desabafo, numa espécie de adeus, ou "até mais".

Um dia, eu, você, nós nascemos. Alguns há mais tempo, outros ainda há pouco. Desde então nós sobrevivemos nesta grande barca chamada planeta Terra. Mas nunca estivemos sozinhos. Dos dias mais ingênuos de vida até o presente momento nós estabelecemos laços com nossos pais, irmãos, tios, primos, cônjuges, avós, e amigos.

Esses laços unem a mim e você, por meio de uma "corda invisível" que eu chamo de amor. E o laço do amor é resistente, quase indestrutível.

Não é um simples laço; é um nó, muito bem atado. Nós que nos unem. Nós e os nós.

Quase todos os dias fazemos novos laços, mas os nós não são feitos assim, de uma hora pra outra. A nossa história, nosso amor, nossa amizade e todo aquele carinho são os contornos e as voltas deste laço que nos ata.

Estes "nós" então se tornam uma extensão da nossa própria alma, e não nos vemos mais como indivíduos solitários. Temos nossos muitos nós e eles nos guiam nessa jornada mundana. Tal qual para o mastro e suas velas, essas cordas e esses nós nos dão a sustentação que precisamos para navegar nesta vida.

Hoje, infelizmente, um nó muito querido se desfez e eu perdi um pouco do meu equilíbrio. Um pedacinho de mim escapou e foi embora, para sempre. Nossa história, nosso amor e nosso carinho, estes ficam. Mas aquela pessoa que estava do outro lado do nó se foi. É justo dizer que ela precisava ir. Precisava descansar, embora isso não alivie a saudade, o amor que fica.

A batalha pela vida, contra si próprio, é a mais terrível e a mais cansativa que existe.

Pois nada se compara ao câncer. Um pedacinho do seu próprio ser que se insurge, nas sombras, minando o próprio organismo. Como uma traição programada, suas próprias células, acima de qualquer suspeita, trabalham como terroristas, multiplicando-se em silêncio, esperando o momento certo de executar o derradeiro atentado, sua própria destruição.

E o nó então se desfaz, deixando para trás apenas outro nó, aquele na garganta, além das incontáveis lágrimas nos nossos olhos.

Já perdi nós insubstituíveis nessa vida e o que nos deixa inconsoláveis é saber que não há nada que possamos fazer, senão assistir, passíveis e inertes, à partida de um ente querido.

Não há amor, não há um "nós" substituível, porque entre mim e você, há uma história única. Mas há, sempre, novos amores. Novos laços, novos "eu e você". E é a um novo "nó", recém atado, que eu dedico toda a minha condolência. Deixo também meus pêsames a todos os meus primos e tios, pois a perda é realmente imensa. Mas ninguém se apoiava tanto neste "nó" como minha pequena prima, minha "irmãzinha".

Descanse em paz, Jaqueline Denker. Obrigado por ter feito parte da minha vida. E saiba que nós daremos todos os nós e laços que forem necessários à (ainda) pequena Ingrith Denker!



quarta-feira, 8 de abril de 2015

Idílicas notícias etílicas II



DOCE:
Asfalto mouraoense faz parte do cartel de commodities!
Agência Róiters.


Após 16 meses de intensas investigações, o Procurador Adjunto da Polícia Agronômica de Campo Mourão concluiu, nesta terça-feira, 30 de setembro, o inquérito político que visava apurar a relação entre o preço do etanol e as chuvas torrenciais que afetavam o nosso município.

Graças à delação premiada de um vendedor de algodão doce que fica o dia inteiro em frente ao portão leste do Parque das Torres com um carrinho verde-limão (cuja identidade é mantida em sigilo para sua própria segurança) a equipe de investigação descobriu um esquema fraudulento entre a Secretaria Municipal de Recapes Rotativos e a COCA — Corretora Orgânica de Commodities Associados.

O esquema funcionava da seguinte forma: açúcar é o principal ingrediente, digo, insumo utilizado para dar liga no asfalto mouraoense. Com isto, a cada chuva, todo o asfalto vai pelo esgoto, juntamente com a água, aumentando a demanda de açúcar para novos recapes. Desta forma, o preço da cana-de-açúcar dispara na bolsa, ocasionando o aumento do preço do etanol nas bombas, pois todo o açúcar produzido na região é destinado às operações de tapa-buraco, garantindo o lucro da COCA.

A descoberta foi confirmada por meio de análises químicas no asfalto, feitas pelo laboratório do DDD (Departamento de Defesa dos Diabéticos). Uma contraprova foi encomendada ainda nesta manhã, e deverá ficar pronta até o início da Copa do Mundo da Rússia. Nenhum dos envolvidos quis comentar os fatos.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Israel e os 7 a 1

As proporcionalidades que Israel é capaz de nos proporcionar


“A resposta de Israel é perfeitamente proporcional. Isso não é futebol. No futebol, quando um jogo termina em empate, você acha proporcional, e quando é 7 a 1 é desproporcional. Mas não é assim na vida real e sob a lei internacional.”

Dias atrás me surpreendi com essa resposta dada pelo porta-voz de Israel, em atenção às declarações prestadas pelo Ministério de Relações Exteriores do Brasil. Na ocasião, o Itamaraty criticou “o uso desproporcional de forças pelos israelenses” no já saturado embate na Terra Santa.

Também pintou um “Anão Diplomático” nas declarações de Tel Aviv, mas considero essa ofensa menos grave, por motivos que não convém aqui mencionar, ainda mais em ano eleitoral.

Hoje, 1º de agosto de 2014, fui buscar alguns dados apenas para ter uma ideia do que Israel considera “proporcional”, na vida real e nas “leis internacionais” (?).

Zapeando alguns sites, como o da Folha de São Paulo, pude apurar que já são 1459 palestinos mortos contra 63 israelenses. O G1.com, site de notícias das organizações Globo, informa que seriam 1464 palestinos, ampla maioria de civis, contra 61 israelenses, em sua absoluta maioria, militares.

Vamos arredondar por baixo as baixas — o que é uma puta falta de respeito com qualquer vida, eu concordo — mas apenas para evitar hipérboles desnecessárias no “cálculo da proporcionalidade de Israel”.

Se levarmos em conta a “ampla maioria de civis”, entre os quais encontramos muitas crianças, podemos dizer que pelo menos setecentos civis já foram mortos por Israel. Já as informações de baixas civis do lado judeu não chegam a sete, mas fixemos esse número, tão especial para a cabala e a cultura hebraica.

700 a 7. Cem por um. Eis um dado “bastante proporcional” de um “conflito justo” aos olhos dos nossos amigos monoteístas. Isto nos cálculos atenuados deste que vos fala, pois a proporcionalidade deve estar mais próxima dos mil por um. Mesmo arredondando para baixo, não foi possível evitar a hipérbole, embora o exagero, neste caso, não seja apenas uma figura de linguagem.

Proporções à parte, a declaração de Israel me deixou mais chocado do que os números, em si. Não pela rispidez, afinal, essas palavras não ferem tanto quanto os bombardeios em escolas da ONU.

É a frieza de quem compara vidas a gols, como se matar fosse um esporte.

Pois é assim que Israel encara o “jogo”. Como uma pelada de fim de semana. Chamar o Brasil de “anão diplomático” até pode fazer sentido, mas fazer de uma derrota esportiva uma piada para justificar um genocídio, aí já transcende o macabro.

O humor judaico faz o humor negro parecer musical infantil. E a nós resta continuar assistindo esse filme de terror — ou mudar de canal e fazer de conta que vivemos em outro mundo, onde os “7 a 1" causam traumas às nossas pobres crianças indefesas.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Lá e cá, outra vez

Decidi que não devo deixar para trás esse blog. Embora tenha criado uma conta no Medium e publicado meus últimos textos lá, acho que, pelo histórico de postagens aqui, devo, no mínimo, manter esse meu cantinho vivo e atualizado.

Por isso, irei fazer o caminho reverso: trazer do Medium para cá minhas últimas postagens.

Tenho uma pequena história de carinho com o blogger. Aqui foi o primeiro espaço onde criei coragem para expor muitas das minhas divagações, sentimento, ideias etc.

Ainda mais nestes tempos em que, aparentemente, reina a solidão nos bons e velhos blogs. Será que alguém ainda aparece por aqui? Talvez sim, talvez não... mas esse silêncio é ainda mais incentivador, porque nos dá a segurança de sermos mais livres para criar.

Por isso, digo: estou de volta.

Divagar, devagar e sempre!

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Mudanças

Saudações, amigos leitores e escritores.

Como tudo na vida encontra suas mudanças, cá estou eu a anunciar a minha.

Estou meio afastado do blog, um pouco por causa do tempo, outro pouco por relaxo e outro tantinho por falta de inspiração mesmo.

Eu optei, recentemente, por aderir a uma rede social para escritores (amadores, como eu, e profissionais, como muitos outros lá). Chama-se Medium. Aliás, recomendo muito, pode-se usar o login do Twitter ou do Facebook.

Aos poucos, irei repostar lá meus textos daqui, bem como postar outras novas insanidades, também por aquelas bandas.

Meu endereço lá é: http://medium.com/@TassioDenker

Nos vemos lá!

Abraços a todos.

quarta-feira, 28 de março de 2012

A arte de não dizer nada


Comece divagando. Seja o mais abstrato possível, contornando assuntos contrastantes, vagos e difusos. Questione, pergunte ao leitor. Faça afirmações pseudocoerentes e questione novamente ao fim. E responda o primeiro parágrafo, com uma palavra. Mas não uma palavra que seja realmente a resposta. Apenas uma que o prenderá ainda mais no texto. Mas como? Assim. 

Depois, direcione o texto para aquilo que quer mais chamar a atenção. Vá estreitando o leque de assuntos, focando o alvo. Mas não chegue nele tão rápido. Vá por interpolação, pelas tangentes. Arrisque uma oração óbvia, manjada, com a qual o leitor poderá se identificar. 

Sabe aquele sentimento de conhecimento abstrato que você possui, que você sabe o que é? É exatamente este sentimento que você deve instigar na pessoa que estiver lendo seu texto. Tente exteriorizar o que você pensa de maneira abrangente, procurando causar efeito de entendimento da mesma maneira que você sabe que você sente saber. 

Dê voltas, prepare o leitor para entendê-lo. Essa preparação deve ser feita enquanto você estiver afunilando o tema. Você sente o conceito e precisa fazê-lo sentir, o que só será possível após ele compreender corretamente as suas dicas.

O clímax é quando você finalmente diz, de maneira concisa, aquilo que o leitor já estava esperando. Ele se surpreende, quando na verdade era aquilo que esperava. O óbvio. Você tinha dado as dicas. Você o tinha preparado. Já havia dito, de maneira indireta, pela forma como conduzira a argumentação, nos parágrafos anteriores. 

Com a simpatia ou apenas a concordância do leitor, quando estiver ele compreendendo corretamente, sintonizado com sua proposta, sem dúvida quanto ao mérito, então você poderá ousar. Surpreender de verdade. Qualquer coisa que tenha uma semelhança, um elo, pode ser arguido. Até mesmo uma falácia. Parecerá um gênio. “Nunca tinha percebido isso” é a resposta perfeita que ele poderá pensar. 

Seja um pouco redundante, para que ele possa digerir a conexão dos assuntos. Dê dois exemplos, mostre na prática. Use analogias. Faça com que, ao longo deste parágrafo, se torne familiar tal conexão, para que não paire aquela sensação de absurdo. 

O gran finale. Você começou abstratamente, divagando em perguntas aparentemente sem nexo, mas que foram indiretamente respondidas ao longo do texto. Ou seja: se ele voltasse ao primeiro parágrafo, o que não fará enquanto não terminar de ler, encontraria todas as respostas implícitas no texto. Agora, do nada, responda uma das perguntas formuladas no começo. Ou então duas, com uma única afirmação. E não precisa repetir a pergunta, apenas responda. Uma afirmação aparentemente perdida. Soa misterioso, sábio e conclusivo. 

Desta forma, você conseguirá prender a atenção do leitor, e, sejam sofismas, sejam verdades, você o enganou. Como eu agora, sem dizer nada. Sem ensinar nada. Sem acrescentar nada. Apenas pelo prazer de tomar seu tempo e fazê-lo gastar comigo. Foi mal aí.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Subjetividades objetivas

Ah, que saudades desse lugarzinho. Meu cantinho da insanidade, do desabafo, delírio e subjetividade. Desde sempre, me disseram, ensinaram e cobraram: seja claro e objetivo. Eis aí, nestes conselhos, as maiores dificuldades que ainda devo superar, na qualidade de "escritor" (uma hipérbole e entre aspas).

Desde que dei por mim, escrevendo, nunca fui muito objetivo. No meu trabalho, até me esforço. Mas nos meus textos, na minha "redação pessoal", ah, aí sempre foi difícil. Ainda mais com meu especial dom de perder o foco dentro de um determinado texto. Recobrando a razão, nem é sobre meu "estilo literário" que quero escrever.

Hoje, eu quero julgar. Mas talvez seja mais adequado dizer - quero classificar. Classificar você.

Tarefa árdua, complexa e ingrata. Como classificar uma pessoa? Escolhendo um parâmetro. E o parâmetro, paradigma deste texto, não é a etnia, o clube de futebol, religião, beleza ou gosto culinário. É a objetividade ou a subjetividade da natureza de cada pessoa.

Tive esse insight quando assistia a um filme chamado "Se enlouquecer não se apaixone" (título original - It’s Kind of a Funny Story). Mas o filme pouco importa, foi apenas um comprimido de LSD para o delírio que vem a seguir.

Ao que interessa... arrisco dizer que existem três tipos de pessoas: as objetivas, as subjetivas e todas as demais, que flutuam num meio-termo até hoje inominado por este que vos fala.

As pessoas objetivas são aquelas que tornam tudo mais simples, fácil. Decidem, quase sempre no impulso. Não tem tempo ruim, não tem sopesares, não existem outras pessoas para se levar em conta. Levam a vida com mais leveza na mesma proporção em que tropeçam e caem. E levantam.

Os objetivos têm uma enorme dificuldade em lidar com as diferenças, em especial aceitá-las. Quando programam um evento, um cinema ou uma viagem, usam a si mesmos como parâmetros. Exatamente por serem débeis na arte de compreender a subjetividade dos demais, levam em conta o que acham que é bom. Suicídio, para os objetivos, é uma loucura. Gastam tão pouco tempo consigo mesmos, imersas em seus pensamentos, que sofrem depressão aguda toda vez que ficam sozinhas por algumas horas.

Sabe aquele cara descolado do colégio, que todo mundo gosta? Aquele mesmo, que não consegue entender que aquele amigo calado também sabe curtir a vida. Só que de outro jeito. Ele nunca vai entender, por exemplo, por que você quis ficar em casa ao invés de curtir "a" balada da semana.

No outro lado do pêndulo estão os subjetivistas. Ah, os subjetivistas. Fazem de qualquer escolha uma decisão espiritual, existencial. Gostam de levar em conta os detalhes, os gostos e as opiniões alheias. Isso quando as perguntam, pois a subjetividade geralmente os faz refletir mais do que falar.

Suas escolhas não são simples. Também, pudera. Quantas pessoas ele pode afetar com sua decisão? Vou locar um filme, mas qual? Fulano não gosta disso, beltrano prefere aquilo. Que lugar ir? Joãozinho não tem dinheiro para acompanhar essa festa, tenho que pensar em outra opção. Se eu escolher um restaurante à beira-mar, a brisa gelada pode piorar a febre do Zezinho.

Os subjetivos são reféns. Reféns de suas escolhas, escravos das suas dúvidas, quase sempre sujeitos passivos em suas próprias vidas. Quando muito, importantes coadjuvantes que se empenham no brilho estelar de seus amigos cativantes, simpáticos e tão... objetivos.

Introspectivos, reflexivos, observadores e, quase sempre, melancólicos. 

Falta ainda falar da "terceira classe", aqueles que se encontram no limbo não muito claro que permeia ambas as personalidades antagônicas. Aqueles cujo pêndulo não alcança as extremidades, graças ao equilíbrio. Mas... acho que não será mais necessário.








segunda-feira, 23 de maio de 2011

Apologias e Analogias


Prometi para mim mesmo que, neste cantinho, neste espaço, ficarei longe, muito longe, das temáticas que envolvem o direito, minha formação acadêmica. O direito só não consegue ser mais chato porque o próprio advogado, muitas vezes, chama essa responsabilidade para si.

Brincadeiras à parte, este espaço eu reservo para fugir do trabalho e das temáticas que o envolvem. O uso como um ombro amigo, uma tribuna de insanidades ou mesmo como um divã. Hoje, quero desabafar. E tentarei manter distância do direito e honrar minha palavra.

De direito, compartilharia apenas o fato de que existem muitas leis inúteis e isso não é nenhuma novidade. Estes termos mais gerais, que pertencem ao senso comum, são as únicas exceções da seara jurídica que utilizarei.

A quem pertence o conhecimento? A quem pertence a cultura? Afinal, o que é cultura? (cortei tão abruptamente o tema, mas foi necessário, me desculpem). Uma definição bem genérica afirma que cultura é o complexo de informações que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade.

E a quem isso pertence? Uma obra, uma teoria, um filme, um livro, enfim, qualquer elemento cultural, a quem pertence? Ao autor? A quem compra? Ou à humanidade?

Estamos diante de um grande debate, de um grande dilema. Talvez alguns mais perspicazes tenham percebido o rumo que este texto irá tomar. Que este autor irá tomar. Tomar um partido.

Pirataria é crime. E, de fato, concordo que seja uma atividade ilícita “lucrar” com a obra alheia. Mas acho que pirataria merece um estudo mais amplo, mais específico. Afinal, quando se fala em piratear, parece que as indústrias de CDs falsos e os internautas que fazem downloads são todos "farinha do mesmo saco".

É como se os grandes traficantes e os usuários de drogas fossem criminosos da mesma natureza. Opa, “pera lá”, que boa analogia... afinal, já até “despenalizaram” os usuários de drogas. Em outros termos, nem são mais “criminosos” aqueles que apenas usam drogas. Agora, quem “consome” cultura é criminoso?

Conhecimento, saber, cultura... eis aí uma busca incessante da humanidade. É um direito inato do homem. Tão importante quanto a liberdade, quanto viver, é a busca pelo conhecimento. Cursos, cinema, colégios, teatro, faculdade, literatura, música... é mais que natural que o homem busque cultura, conhecimento e lazer.

Eu posso consumir maconha, cocaína, eu posso fumar crack ou óxi, mas eu não posso consumir um filme, ler um livro, assistir um seriado ou escutar algumas músicas?

Ora, não estou “lucrando” com nada disso. Não estou explorando comercialmente nenhum destes conteúdos. Estou, no máximo, me engrandecendo enquanto ser humano, adquirindo conhecimento, tendo experiências emocionais, afetivas, adquirindo “repertório”, conhecendo outras culturas etc. E por isso, sou criminoso?

Os autores merecem e devem ser ressarcidos por suas obras. Mas existem diversas formas de se incentivar o ganho autoral. TVs e rádios são gratuitos, de livre acesso. Ninguém paga para ver uma TV aberta, e ela tem a sua fonte de renda. Grandes portais da internet também são gratuitos e exploram seus ganhos com publicidade.

Pirataria musical não diminuiu o interesse do público pelos shows ao vivo de seus artistas favoritos. Aliás, muitos se consagraram graças à troca gratuita de suas músicas na internet.

Ou seja, existem alternativas. Até reverem essa política de pirataria, considerem-me um fora-da-lei.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Parem o ano que eu quero descer


“Esse ano está passando rápido”. Eis aí uma frase bem comum, que quase todos nós compartilhamos, em algum momento da vida. Principalmente quando vemos que o tempo não vem sendo assim tão... camarada. 

E mais. Posso dizer ainda que a cada ano que passa, essa sensação fica mais evidente. O ano retrasado passou rápido. O passado, voou. Esse, nem vi passar. Nem esperem pelo ano que vem. Quando menos perceberem, já estarão na década seguinte. 

Mas por quê? O que vem acontecendo? Eu parei para pensar e, para o azar de vocês, cheguei a uma conclusão... (um minuto de silêncio para aqueles que, em sã consciência, estão fechando o navegador e se retirando do blog...): Proporcionalidade. 

Tá, parece um palavrão. Aliás, é um “palavrão” – são 17 (!) letras. Mas tem muito a ver com relatividade. Nada de Einstein, não se preocupem. Apenas um pouquinho de lógica matemática implícita no contexto. 

Dá para traduzir? Acho que dá. Vejamos: 

Quando temos 7, 8, 10 anos de idade, qualquer "um ano" é uma eternidade. Também pudera. Quando se tem 10, um ano equivale a 10% de todo seu tempo de vida. É aqui que entra a proporcionalidade. Quando se tem 7, ele equivale a quase 15%. Quando se tem trinta anos, por outro lado, um aninho equivale apenas a 3,5%, aproximadamente. E quando se tem 70, um ano não chega a representar 1,5% do tempo de vida que já se viveu. 

Matemática é um saco, eu concordo. Mas não podia deixar de mencionar tais números, no parágrafo passado. A verdade é que, com o passar dos anos, o próprio ano fica proporcionalmente menor para as pessoas. E menos importante. 

Vejam o início de um namoro, por exemplo. No começo, comemoram-se semanas, meses. Um ano, dois. Casamento. Depois de um tempo, dez anos de casado. Bodas de prata. Bodas de ouro. Os “marcos” passam a ser comemorados de 25 em 25 anos. 

O que é um ano a mais, um ano a menos, para os “supercentenários?” E para os tão badalados “vampiros”, que cruzaram a eternidade, diretamente dos contos medievais às três dimensões do cinema?

É, o tempo e suas fascinantes magias. Guardo uma eternidade dentro de cada lembrança. E uma lembrança dentro de cada lágrima, em cada sorriso. E nem todos os anos que me restam serão suficientes para expô-las.


PS.: Se você contou a quantidade de letras que a palavra "proporcionalidade" tem, bem-vindo ao clube.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Do "eu" ao mundo

Me peguei pensando: por que é que escrevo tanto sobre o “eu” de cada um de nós? Pois é, sempre que penso demais, acabo aqui, nesta pequena ilhota, cantinho do pleonasmo, refúgio da antítese, meu blog. E de cacofonias, como o título deste texto.

Ao escrever sobre o “eu”, sobre tristezas e alegrias, sobre desejos e responsabilidades, me privo de abrir o leque e abordar outros temas mundanos. Fico sempre nesse laço, nesse nó, nesses “nós” que amarram tantos “eus”. Existencialismo, felicidade, o hábito de escrever. Sonhos, medo de acordar. Reflexões pessoais sobre relações diretas, sobre a vida, sobre a morte.

Por que nunca falo do todo? Por que nunca falo de política, de economia, por que não falo de direito, de história, das notícias da atualidade? Talvez porque não me sinta assim, tão globalizado. “Cidadão do mundo” me assusta um pouco. Me faz ainda mais pequeno. Ou então, justificaria, por falta de critério. Ahm?

“O homem é a medida de todas as coisas”. Essa frase, vinda de um “sofista”, não deveria inspirar tanta confiança. Mas serve de desculpa, se é que me entendem. Se não deu para entender, não tem problema. Nem eu entendi ainda.

Mas creio que seria algo mais ou menos assim: vivo em um verdadeiro pêndulo existencial. “Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto”. De fato, como já disse Renato Russo, eu também não sei quem sou. Meus textos, aí, confirmam – careço de rótulos.

E, se não sei nem ao certo quem sou, como “me usarei” de medida para o que se passa ao meu redor?

Todos os conceitos que fazemos do “macro”, dos temas globalizados ou regionalizados partem de pressupostos particulares. Partem de um micro. De algum “eu” perdido neste planeta. E eu, autor e narrador desta divagação, não possuo critérios. Não tenho conceitos de mim. Não sabe quem sou ou o que sou.

Por isso evito tais temas. Restrinjo-me a mim, a você e aos “eus” que também se sentem perdidos. Como escrever sobre o mundo se não sei ao certo o que se passa dentro de mim? O mundo acontece, mas lá fora. Eu, aqui dentro. E ainda não me senti adulto o suficiente para abrir essa porta e explorar o horizonte.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

De volta ao lar


Voltei a sentir, com certa nostalgia, uma inquietação, um distúrbio no estado de espírito, que me faz sentir culpado pela não atenção ao hábito (de outrora) de escrever meus malfadados textos.

Há dias em que essa sensação pulsa em meu âmago. Nos primeiros dias, pensei: “deve passar”. Mas esse passageiro não embarcou nem se deixou ser despachado. Permanece ali, inquieto, aguardando ver seu desejo atendido. “Faz tempo que eu não escrevo nada”, voltei a cogitar. Surpreendi-me, então, com uma faísca de certeza. Era ele, ali, acenando positivamente.

Hoje, com certa timidez, desacostumado, me flagro aqui, discorrendo estas notas existencialistas, sobre abstrações que em nada acrescentam ao nosso dia-a-dia. Confesso, um pouco contrariado, que faço desse texto um desabafo, ou melhor, uma vã tentativa de me enganar e satisfazer esse ego, às vezes egoísta, às vezes altruísta. Ou em um ponto qualquer entre esses dois valores antagônicos e tão satisfatórios. Pelo menos creio eu que nos faz realmente bem ser ora egoístas, ora altruístas.

Mas não é sobre isso que eu quero discorrer. Na verdade, não quero falar sobre nada, só quero desabafar. O problema é que nem ao certo sei sobre o que eu quero desabafar. Na verdade, eu precisava escrever algo. Minhas manias. Escrever para alguém. Ou então, para ninguém - minha especialidade.

E o que escrever? Que ao menos, eu tentei?

Acho que hoje, por mais que me sinta intuído a escrever, não me sinto inspirado. Ou, talvez, em mais uma megalomaníaca forma de escusa, esteja inspirado demais, a ponto de que tanta informação, tanta sede, tanta vontade faça com que as ideias acabem por se misturar, se confundir e se encerrar no caos que é a minha mente.

A realidade é que eu não tenho nenhum dom, nenhum talento, mas gosto de me enganar com a ideia de um potencial latente. Daqueles que, quando precisam, na hora do aperto, fazem tudo do bom e do melhor. Enquanto isso, fico aqui, deitado, vendo o mundo acontecer, observando passivamente a história. “Quando chegar a minha vez, eu dou conta” — penso, ou melhor, me engano.



segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sono?


Ah, dormir…

Não consigo me acostumar com a ideia de que algumas pessoas não gostam de dormir. Eu amo dormir.

Entregar-se àquela cama, macia e reconfortante, que te recebe com um abraço todas as noites. Esquecer os problemas do dia a dia, do ritmo frenético que se impõe à nossa consciência. Relaxar todos os músculos do corpo e perder, aos poucos, a consciência...

Ah, a doce perda da consciência... imergir delicadamente na escuridão total, libertar a mente da cansativa lógica mundana, das convenções abstratas, sem preocupações, sem prazos. Arrebatar-se suavemente, aconchegar-se e esquecer a constante luta contra a gravidade. Deixar o silêncio ocupar toda sua mente.

Cada sono tem sua eternidade, por mais efêmero que seja.

Eis que então... então vem o despertador! Essa máquina maldita que mede, que mensura nosso sono. Esse carcereiro do descanso, que mantém sempre um vínculo com o mundo externo, o tempo.

Acordar é sofrer. É trazer à tona a consciência trôpega, pura e cristalina, e lançá-la neste mundo de dor, de barulho, de incessantes luzes. Ativar, à força, todas as terminações nervosas, o olfato, a visão, a audição, o tato. É voltar a sentir todas as dores, crônicas e agudas.

É como se fôssemos mergulhados em água gelada, sem dó nem piedade e, num estalar de dedos, nosso cérebro fosse entulhado de novas informações. Imagens, sons, cores, lembranças, compromissos, escola, trabalho... Acordar é nascer de novo, todos os dias. Agora entendo a dor, o choro do recém-nascido. Acordar, nascer... doem!

Acordo todos os dias e a primeira coisa em que penso é exatamente a hora em que irei dormir novamente. Dormir é tão bom que, quando lembro daquela velha metáfora sobre o sono eterno, a morte não me parece nem um pouco ruim.

Poderia ainda dizer que... ah, droga, meu celular despertou... lá vamos nós de novo!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

À sua imagem, minha semelhança


Não me interessa quem eu sou. Ainda insisto no velho erro de tentar me definir. Logo eu, falando sobre mim, que incoerência.

Eu sou aquele velho retrato, preto-e-branco, em alguma prateleira na casa da sua avó. Sou aquele antigo disco de vinil, esquecido na caixa de algum guarda-roupa. Ou apenas mais um blog, chato e maçante, em meio a tantos vídeos e músicas que rolam na internet.

Não perca seu tempo querendo me entender. Já basta o tempo que eu perdi. Eu não quero ser, quero apenas estar. Não tenho rótulos, sou uma garrafa vazia, me encho com o que você me dá.

Fique à vontade para me rotular, sou exatamente aquilo que você acha que eu sou. Olhe atentamente nos meus olhos. Olhe, julgue, rotule. E verá você. Porque eu, eu não sou ninguém. Eu sou apenas o seu espelho.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Hoje não


Deixem-me em paz. Tudo que eu quero é me fechar no meu mundo, me curtir na solidão dos meus pensamentos. Quero sentir a lágrima que desce pela minha face, gelada, fazendo seu caminho rumo ao solo. Quero mergulhar o rosto no travesseiro, e gritar sem ser ouvido.

Quero morrer por um dia. Quero viver esse vazio que me enche o peito. Quero gozar essa tristeza, e me sufocar com essa melancolia. Quero sentir a raiva do mundo, me sentir culpado, me sentir injustiçado. Quero explodir em ódio e te culpar. Culpar o mundo. Culpar todo mundo.

Quero um pouco de paz e muito silêncio. Quero verter lágrimas negras, imundas, até que minha alma fique limpa, lavada, e meu choro cristalino.

Não se preocupe. Voltarei a sorrir. Desatarei este nó em minha garganta. Voltarei a viver com a pouca alegria que sempre tive. Voltarei a ver as cores que embelezam o mundo, saborear os sons que alegram o cotidiano. Sim, eu renascerei.

Mas não hoje.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Metade é muito


Às vezes penso: quanta coisa já vivi. Se fosse listar o que já me aconteceu, não saberia nem por onde começar.

Infância? Os pés descalços, os primeiros amigos, a família... a escola, as "tias", merenda, lanche, recreio... cada Natal, cada presente, cada aniversário. Cada choro, cada palmada...  Aprender a andar de bicicleta, cair, levantar. Cada série que cursei, um pequeno mundo que criei. Adolescência? Faculdade? Trabalho?

Um pequeno detalhe destranca uma porta esquecida na memória. Talvez fosse mais fácil separar as lembranças por sentidos... cada imagem, cada sabor, cada música que gostei... não, não... impossível!

As cidades, as casas em que morei, poucas, eu sei, mas ricas em lembranças, em histórias.  E as pessoas? Quantas cruzaram meu caminho? Muitas delas nem mais vivas estão...

Cada amigo que perdi, cada parente que se foi. Entre mim e cada uma das incontáveis pessoas que conheci existe um "nós". Existe um nó. Alguns, bem atados. Outros, desfeitos.

E por que penso nisso?

Talvez porque já tenha vivido tanto, mas tanto, tenha tido tantas experiências, que já se tornou impossível lembrar de todas, catalogá-las, organizá-las. E ainda reclamamos da nossa curta existência...

Vivi apenas 30 anos. Só um terço, na melhor das perspectivas. Ou quase tudo, no pior dos casos. Mas vivi. Tão intensamente que, quando tento relembrar, fico perdido, fico agradecido. Não sei o que sou, de onde vim, pra onde que vou. E por que isso importa?

Há tanto tempo aí, disponível para se viver, que sempre acaba nos folgando algum para reclamar da nossa "efêmera" existência. Efêmera? É, somos ingratos.


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Carta aberta


"Campo Mourão, 05 de junho de 2006. 

Tássio:

Furto um pequeno lapso de tempo, valioso, cabe informar, para escrever-te (ou escrever-me) um singelo recado, para que seja lido em um futuro incerto. Em outra época cobrei-me, justificadamente, que me dedicasse a escrever mais. 

Acho interessante materializar em alvas folhas de papel (ou em luminosos monitores de computador) um pouco mais do que penso, do que sinto, para que isso permita, se a alguém interessar, conhecer-me melhor. Especialmente eu. Preciso alcançar um melhor nível de autoconhecimento.

O tempo é escasso. Na ampulheta, a areia do tempo flui, escorrega por entre nossos dedos, sem que possamos retê-lo. E enquanto o tempo rouba sua juventude, você ignora aquilo que pulsa em seu âmago.

Por quê? Tem vergonha? É um ser humano, um ato falho, bobo e sentimental, que buscou, às vezes nos mais dispensáveis detalhes, a perfeição que nunca, NUNCA chegou perto de alcançar. 

O seu futuro, afirmo, logo será passado, e as lágrimas derrubadas neste presente secarão antes mesmo de regar as glórias daquilo que planeja colher. E, se porventura o sopro gélido ceifar o seu futuro, transformando-o num efêmero passado de tristezas alheias, tua sina poderá ser mais bem compreendida e sua tristeza, finalmente, revelada. 

Por isso reitero: viva, registre, escreva.

Atenciosamente,
Tássio"

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

As pedras vão rolar...

Faz tempo que quero falar sobre música. E já começo alertando aos críticos e musicistas de plantão que, NÃO, eu não entendo nada de música. No máximo, arranho quatro ou cinco acordes num violão, mas não consigo cantar e tocar ao mesmo tempo. Eu admito, sou completamente descoordenado (ou disléxico, vai saber...).

Ainda assim, sou um apaixonado pela música. Passo horas ouvindo bons CDs, fazendo downloads (pirataria feelings) e assistindo videoclipes no YouTube.

Quando somos mais novos, temos a tendência a sermos ecléticos. Eu já fui eclético, até uns 12 anos. Estamos em formação e somos presas fáceis da mídia e da modinha. Mas aí descobrimos algo que gostamos muito, nos aprofundamos e, quando olhamos para trás, temos até vergonha daquilo que curtíamos.

Antes de continuar, quero ressaltar que não estou aqui para ofender ou falar mal de qualquer outro gênero musical. Cada um gosta do que lhe apetece. E às vezes o gosto não é nem uma questão de escolha, é uma questão de identidade. O que eu quero é defender um gênero em especial.

Um dia eu descobri o Rock. Essa vertente musical é tão dinâmica e extensa que ainda posso me definir como eclético. Gosto de rock nacional, hard rock, heavy metal, grunge, punk rock, hardcore, rock progressivo, psicodélico, de garagem... enfim, Rock'n Roll.

A maior parte dos músicos que eu conheço tiveram no rock sua inspiração. Sim, no rock.

Ou por acaso você conhece alguém que quis ser guitarrista por causa de um solo de guitarra de Zezé de Camargo e Luciano? Ou um baterista que vibra com Luan Santana? E o baixo alucinante do Roupa Nova? E  o que dizer daqueles vocalistas sensacionais de funk, de pagode... Ora, os nomes citados são de grandes artistas em seus respectivos gêneros. Mas o foco é outro.

O foco é o daqueles que enchem estádios, em qualquer lugar do mundo. É daqueles que estão presentes em todos os países, em todos os idiomas.

Acho que o rock fala para a alma como poucos gêneros musicais. E ele não se limita ao amor, ao saudosismo. Vai além. Fala dos problemas sociais, da violência, de política, corrupção, aborda questões existenciais. Protesta, conta histórias e estórias, fala de anjos, da vida e da morte. Depressão, felicidade, poesia e religião.

E os movimentos musicais que ditaram modas? Existem os músicos que acompanham tendências, são "da modinha". E tem aqueles que ditam as regras. Subvertem a moda, a mídia à sua vontade. Movimento Punk,  movimento Grunge. O rock não conhece fronteiras, não tem limites.

Estou evitando dar exemplos. Seria injusto citar alguns nomes quando o rock fornece toda uma enciclopédia musical, em todos os instrumentos que se possam imaginar. Da flauta ao acordeon. Dos meninos de Liverpool ao vovô que comia morcegos.

É, o rock liberta, quebra paradigmas. Afinal, quem aí nunca quis ter uma banda de rock?


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Procurando "eu"


Me perdi, mais uma vez.

Parece uma simples questão de estar, quando na verdade se trata de uma questão de ser. Estou perdido, mas eu ainda sei onde estou. Paradoxo? Não. O que eu não sei é: quem eu sou?

Ainda não descobri. Mas já sei onde procurar: lá, bem longe dos holofotes, escondido no silêncio da reflexão, em meio à solidão dos meus pensamentos.

A jornada é longa, a estrada sinuosa. Mas é apenas lá que poderei me encontrar, descobrir quem eu verdadeiramente sou. E você sabe onde se encontrar?

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Em busca da criatividade perdida

Raramente começo um texto fazendo ressalvas. Neste caso, é mais do que importante. O título “Em busca da criatividade perdida” não quer dizer que perdi minha criatividade e agora quero recuperá-la. Pelo contrário, eu nunca tive criatividade, então estou procurando por alguma que alguém tenha perdido. E não pretendo devolver.

Feitas as considerações iniciais, todos sabem como é difícil começar um texto. Às vezes temos tantas ideias, tantos conceitos, mas, sabe-se lá por que, eles ficam aprisionados dentro de nós, trancados atrás de uma porta chamada “primeiro parágrafo”. Depois de aberta, as ideias costumam fluir com naturalidade.

Mas isso é pra quem tem ideias. E o que eu mais queria era ter uma ideia. Mas não uma ideia qualquer. “A ideia”. Criativa e original. Encantadora e arrebatadora, o que tá difícil. Muito difícil.

Eu já publiquei... (deixa eu ir no blog contar...) 11 textos. 12 com este. Escritos e salvos no computador pessoal, algo em torno de 130 (muitos dos quais nunca serão publicados, asseguro). E até hoje, nada. Nenhum clarão, nenhum súbito momento de inspiração divina, de elevação espiritual. Nada.

E é exatamente isso que eu espero. Um dia (eu ainda sonho que esse dia vai chegar) vou sentir uma profunda inspiração e, quase que possuído por uma genialidade cósmica, vou arder em uma febre onívora de observação e vou conceber minha obra-prima. E vou poder enfim sentir o deleite sagrado dos deuses, o regozijo supremo.

Tenho certeza de que, quando Mozart compôs uma de suas obras-primas, Don Giovanni, ele deve ter curtido muito o seu momento, concluindo: “eu sou foda!”. Einstein, depois da teoria da relatividade, deve ter acendido um belo charuto, tomado uma taça de vinho e pensado: “pobres mortais...”. O que eles tinham em comum? Eram gênios, e sabiam disso. E sabiam também que suas obras eram fantásticas. Eles riam por dentro, de tanta felicidade.

E eu? Eu já estou cansado das vozes que eu ouço. Elas não me sopram nenhuma coisa interessante, digna de registro. Conversando com um garfo, ontem, percebi que estou cada vez mais longe do que nunca de ter uma ideia genial. O que também deve ser consenso entre vocês, leitores. Mas teimoso como sou, eu ainda não desisti de encontrar, perdida por aí, a criatividade perdida de alguém.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Deuses do nada

Somos animais. Mamíferos, primatas e hominídeos. Mas não se preocupem, biologia não é o foco desta nova divagação etílica. Tá, tudo bem, eu confesso, não estou alcoolizado. Mas seria uma boa desculpa para justificar o que vai acabar surgindo nas próximas linhas. Se é que tem desculpa...

Pluricelulares. Esta é a última expressão que empresto da biologia. Somos animais compostos por cerca de 50 trilhões de células (obrigado Google) que nos dão essa aparência, essa unidade.

Eu disse... unidade?

Ora, cada pequena célula é um micro-organismo vivo que pode, inclusive, viver e se reproduzir fora do corpo humano. Nós somos um conjunto de trilhões de células vivendo em uma organizada forma de sociedade microscópica.

De onde vem então essa unidade, essa individualidade que nos permite julgar os verbos na primeira pessoa? Essa noção de individualidade não reside em nenhuma das nossas células. Não há um “eu” biológico ou celular dentro de você. Há apenas um conjunto de células. Quem sou “eu”? Não seria mais correto dizer “nós”?

Quando usamos o “eu”, não estamos dizendo, “meus pés gostam de chinelos” ou “meu cérebro não gosta de matemática”. Estamos dizendo apenas “eu”. Mas não existe esse “eu”. Existe apenas o “nós”.

Tá, eu sei, soaria estranho dizer “nós, membros da República Pluricelular Tássio Denker, queremos um Big Mac. Coca-Cola Zero, por favor.”

Questionar não é crime. Sempre me pego pensando nessas questões fundamentais acerca da existência humana (fundamentais?! existência humana?! WTF?!). O problema realmente começa quando eu quero responder essas questões.

Aconselho, portanto, que parem por aqui.

Bem, já que vocês insistem, agora é por conta e risco de vocês.

Milhares de pequenos seres vivos, que vivem em função de um “ser maior”, que não existe individualmente, senão no conjunto de todos eles... Um ser superior, que comanda e condiciona estes pequenos seres vivos... Um ente que não passa de uma “consciência” maior que seus pequenos seres...

Seríamos um... (rufar de tambores)... Deus?

Sempre achei que eu era especial (excepcional talvez?), mas um Deus? Somos deuses de nós mesmos? Deuses do... nada?

Segundos antes de publicar esse texto me veio outra idéia, providencial e que pode inclusive amenizar a minha barra: seria esta unidade o conceito de alma? (ufa!)

Tá, tomei muito do seu tempo, eu sei. Mas nunca prometi algo bom mesmo. Eu e minhas teorias furadas. Aliás, eu já comentei com vocês sobre a minha teoria acerca da origem do universo?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um dedinho de prosa

Como você se sente quando suas potencialidades não correspondem às suas expectativas?

Adoro a poesia e admiro quem tem o dom e a facilidade de brincar com os sentimentos e as palavras. Eu queria ser poeta, dominar essa arte com leveza e elegância.

Eu? Eu escrevo. Tento transformar sentimentos em palavras, sensações em verbetes, pensamentos em vocábulos. Mas, infelizmente, fui condenado a essa forma de prosa, prosaica, lugar-comum. Tenho o espírito triste, um olhar melancólico. Sinto que tenho alma de poeta. Tão somente a alma.

Minha criatividade e o meu intelecto são absolutamente incapazes de tratar as palavras com carinho. Surro-as, despejo-as, sem paixão, sem emoção. Desordenadas e caóticas. Apenas empilhadas, parágrafo após parágrafo.

Que emoção seria eu capaz de despertar, de instigar, se, quando muito, trago nos meus textos um pouco de razão?

O poeta não faz apenas poesia; dá som às palavras, cor aos sentimentos, aroma aos trocadilhos. Eu faço cinema mudo, preto-e-branco, construo jardins sem flores. É como se eu tivesse nascido para voar, mas minhas asas me foram negadas.