terça-feira, 7 de junho de 2016

Uma crônica sobre o otimismo e a ingenuidade

Era uma vez um homem simples, bom de coração, ingenuo e muito otimista. Morava no sertão. E uma seca muito severa havia devastado quase toda paisagem que os seus olhos podiam alcançar. Quando só lhe restava apenas uma vaquinha malhada, um vizinho, velho conhecido seu, veio lhe visitar. A seca, claro, e a água minguando logo entraram no assunto:

- Compadre, tu sabia que se tu 'cava' bem fundo, tu pode 'acha' água? 
- Olha compadre, sabia disso não!
- Mas é... mais tem que 'sê' muito fundo!

Aquela sugestão deixou o homem esperançoso. No dia seguinte, amolou sua enxada, deu um tapa na sua pá e partiu pro fundo do quintal e começou a cavar. Cavou, cavou, cavou, mas nada de água. Quando já tinha cavado mais de 5 metros de profundidade, seu vizinho, lá do alto, perguntou:

- E aí meu compadre?  Achou água?
- Ainda não, compadre, mas acho que se eu cavar mais um pouco eu acho.

E lá foi o pobre coitado, cavando, cavando, até chegar a quase 10 metros de profundidade. Foi então que se deu conta: como é que voltaria para a superfície? Gritou pelo compadre:

- Compadre? Compadre? Como é que eu saio daqui agora, meu Deus do céu?
- Olha compadre, sei não... 'ocê' tem corda? 
- Tenho não, compadre, e 'ocê'?
- Também não... e não tem ninguém morando por estas bandas além de nós dois. A próxima alma viva fica há uns 4 dias de viagem, de burro, mas nenhum de nós tem burro...
- Ave Maria, num aguento 4 dias aqui não... num tenho mais água para nem 1 dia...
- É compadre, parece que tu cavou fundo demais e num sai dessa vivo não...
- É, me lasquei. E agora?
- Olha compadre, podemo até reza pra chove ou pra aparece alguém. Mas, por via das dúvidas, já que tu tá aí mesmo, posso ficar com sua vaquinha?

Cabisbaixo, triste e resignado, o homem responde:

- É toda sua, compadre, cuide bem dela.

E o vizinho se foi e nunca mais se soube do que aconteceu com o pobre homem, o seu vizinho ou mesmo sua vaquinha malhada.

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